07
Jan 12

SHINDO RENMEI

SHINDO RENMEI

 

Uma das páginas obscuras na história da imigração japonesa
no Brasil, e que por muito tempo foi um tabu, cujas lembranças causavam dor e
sofrimento para os membros mais idosos da coletividade nikkey, foi a Shindo
Renmei, associação fundada na década de 40 em São Paulo, por um imigrante que
havia sido coronel do Exército imperial, Sr. Junji Kikawa.

Quando se fala de uma organização que foi tida como
terrorista pelo governo brasileiro, imagina-se uma associação de loucos e
fanáticos. Mas, na verdade, ela foi fruto de uma época, a era Vargas, que com
seu ideal fascista, contribuiu para a criação de um espírito xenófobo e, de
maneira semelhante aos nazistas alemães, desejavam um país branco, eugênica,
onde o povo brasileiro deveria passar por um processo de “branqueamento”, com a
abertura da imigração para os europeus e o fechamento das fronteiras para os
japoneses. Ao iniciar a Segunda Guerra Mundial, com o Brasil se unindo aos
países aliados (Estados Unidos, Inglaterra, França e outros) e declarando
guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), os descendentes destes
países passaram por um processo de perseguição, sendo considerados inimigos da
pátria e possíveis espiões a serviço do inimigo. Com isso, os clubes e associações
fundadas pelos imigrantes japoneses, bem como hospitais, jornais impressos em
língua japonesa, programas de rádio e até mesmo aparelhos de rádio de ondas
curtas, que pudessem captar os programas do Japão, foram lacrados ou
nacionalizados, sendo impedido o seu uso. O simples fato de falar em japonês
era considerado crime, bem como a reunião de mais de duas pessoas japonesas era
considerado conspiração e passível de prisão. Neste clima, onde a comunidade de
japoneses (em torno de 200 mil japoneses e descendentes na época), a grande
maioria deles moradores em fazendas no interior de São Paulo, a grande maioria
analfabeta em língua portuguesa, e que mal sabia falar o português, todas as
fontes de informação foram impedidas, criando uma comunidade que recebia as
notícias do Japão e do mundo através de boatos.

A era anterior à segunda guerra mundial, no Japão, foi
dominada pelos militares e o seu espírito beligerante, chamado Yamato damashi (
espírito japonês puro) havia impregnado a todos os japoneses. Ao longo de 2600
anos de história, o Japão nunca havia conhecido a derrota nas mais diversas
guerras em que havia se envolvido, contra os chineses, coreanos, russos e
outros inimigos. O Império Japonês, no início da década de 40, havia adquirido
vasta extensão territorial, através das armas, tendo anexado a Mandchúria
(região leste da China), as Filipinas, Indonésia, Coréia, e várias ilhas da
Oceania. A vitória imposta aos americanos, no início da guerra, era
propagandeada pelos jornais impressos, pelo cinema e pelo rádio. Portanto, para
os japoneses aqui radicados, era impossível que o Japão perdesse a guerra, e a
falta de informações corretas fez com que mais de 80% dos imigrantes não
acreditassem que o Japão havia sido bombardeado com duas bombas atômicas em
Hiroshima e Nagasaki  e que o imperador
Hirohito tivesse feito um pronunciamento pelo rádio, (pois até então, o
imperador era tido como uma divindade e sua voz não podia ser ouvida pelos
simples mortais), aceitando as condições americanas para uma rendição, em 15 de
agosto de 1945.

Tais fatos e o ambiente reinante na época, fez surgir
diversas organizações secretas no seio da colônia, para preservar o espírito
guerreiro japonês. Dentre estes a Shindo Renmei, (Liga do Caminho dos Súditos,
em tradução literal) foi a que mais prosperou, recebendo doações de milhares de
imigrantes. Fundada pelo Sr Kikawa, ex-coronel do Exército Imperial Japonês que
havia imigrado para o Brasil, com sede na Rua Paracatu 96, no Bairro do
Jabaquara, São Paulo, esta associação prosperou no interior de São Paulo,
principalmente nas cidades de Marília (12 mil associados), Pompéia (dez mil
associados) , Tupã (oito mil e quinhentos associados), Mirandópolis, etc..

Naquela época, a colônia japonesa estava dividida entre os
chamados “katigumi” (grupo dos vencedores) e os “makegumi” (grupo dos
perdedores). Na verdade, eram uma divisão entre os isseis, imigrantes oriundos
do Japão e que não falavam o português, e os nisseis, nascidos no Brasil e que
já dominavam a língua portuguesa, tendo acesso às notícias e informações que
eram todas veiculadas pelos jornais e rádios em língua portuguesa. Ao tentar
convencer a comunidade japonesa que as notícias do mundo todo informavam que a
guerra havia acabado e que o Japão havia se rendido, tais pessoas se tornavam
inimigos dos membros da Shindo Renmei. De início, recebiam ameaças e insultos.
Depois, os membros organizados em pelotões de cinco a sete membros, partiam
para atos de terrorismo e o assassinato.

Em 7 de março de 1946, Ikuta Mizobe, diretor da Cooperativa Agrícola
de Bastos, SP, foi a primeira vítima de assassinato, cometido pelo braço armado
da organização, chamado Tokkotai, soldados que se vestiam de amarelo, usavam
facas e espadas para assassinar àqueles que divulgavam em público que o Japão
havia perdido a guerra.

Desta mesma maneira, de 1946 a 1947,  24 pessoas foram assassinadas pelos jovens
membros da organização e mais de 147 pessoas foram feridas pelos mesmos. O
DEOPS, Departamento de Ordem Política e Social, desmantelou a organização,
prendendo mais de 600 membros e simpatizantes da organização e condenando-os à
prisão ou extradição para o Japão, fato que nunca chegou a ocorrer.

Portanto, à uma avaliação superficial, parecia tratar-se de
um grupo de fanáticos que assassinavam pessoas inocentes. Na verdade, era o
resultado de uma época de excessos de ambos os lados, onde a desconfiança e a
discriminação por parte dos brasileiros, aliado a um espírito militarista,
associado ao desconhecimento da língua portuguesa por outro, permitiu a criação
de uma organização que causou muito medo e ate hoje, é motivo de vergonha para
os imigrantes japoneses no Brasil.

Hoje, quando se fala que os brasileiros estão integrados à
coletividade brasileira, tal fato de início foi um processo doloroso, eivado de
preconceito e desconfiança de ambos os lados. É um fato que foi estudado por
Fernando de Morais, no livro “Corações Sujos” e principalmente por Rogério
Dezem, historiador e pesquisador da historia da imigração japonesa, e cujos
dados forneceram material para o texto acima.

Estudar o tema e exorcizar o passado é um processo
necessário, para que tais fatos sejam devidamente estudados e conhecidos por
todos, para que tais ocorrências não se repitam no futuro. E a história da imigração
japonesa no Brasil, apesar de seus percalços, pode ser considerada vitoriosa,
com os seus membros hoje completamente integrados à sociedade brasileira.

publicado por drtakeshimatsubara às 20:26 | comentar
29
Dez 11

IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL

 

Em 18 de junho de 2008, foi comemorado o centenário da
imigração japonesa no Brasil. Dos primeiros imigrantes, que vieram a bordo do
navio Kasato Maru, e que atracou no porto de Santos, no dia 18 de junho de
1908, todos já morreram. Tivemos várias levas de imigrantes que vieram para o
Brasil, e a história se divide naqueles que vieram antes da II Guerra Mundial,
e depois da guerra, a partir de 1952.

A colônia Agrícola Nacional de Dourados, fundada em 1953 por
Getúlio Vargas, teve uma participação importante do SR. Yasutaro Matsubara,
que, apesar do mesmo sobrenome, não tem nenhum parentesco com a minha família.
Ele era um imigrante vindo do Japão, que se estabeleceu na região de Marília,
SP e que se tornou um grande fazendeiro e líder da colônia japonesa,
tornando-se amigo de Getúlio Vargas, que o chamava de “compadre Matsubara”.
Devido à amizade entre ambos, o Sr. Yasutaro pediu ao presidente que doasse
1000 lotes para os imigrantes japoneses, o que permitiu a vinda de centenas de
famílias diretamente do Japão e ajudaram a formar as colônias Kyoei, Laranja
Lima e Barreirão, hoje ricos produtores de soja e milho.

A minha família, imigrou em 1953, estabelecendo-se em
Santana do Itararé, PR, outra colônia japonesa que também fora fundada pelo Sr.
Yasutaro Matsubara, antes da segunda guerra mundial.

Decorridos cem anos de imigração, observamos que a
comunidade nikkey (como são chamados os descendentes de japoneses que moram no
Brasil e que se encontram bastante miscigenados) está totalmente integrada à
sociedade brasileira. Tivemos uma grande leva de dekasseguis, a partir de 1986,
que fizeram o caminho inverso e voltaram para o Japão, devido à carência de mão
de obra para trabalhar como operários nas fábricas japonesas. Uma parte deles retornou
ao Brasil e aqui estabeleceram seus negócios. Outros preferiram ficar morando
em definitivo no Japão.

Comparando a imigração japonesa no Brasil e nos Estados
Unidos, percebemos uma diferença gritante entre ambos. Aqui, já nas primeiras
levas, iniciou-se um processo de miscigenação, de tal maneira que hoje, mais da
metade dos nikkeys são mestiços. Lá, apesar da imigração mais antiga, a
miscigenação é mínima, principalmente devido ao preconceito dos americanos, que
não permitem o casamento inter-racial.

Inicialmente, os japoneses vieram para trabalhar nas
fazendas de café do interior paulista. Aos poucos, eles foram adquirindo terras
próprias e começaram a plantar, ajudando a promover uma grande mudança de
hábito na alimentação dos brasileiros, que antes dos japoneses, quase não
conheciam os legumes, as verduras e as frutas, de tal maneira a formar os
cinturões verdes ao redor das grandes cidades e fornecendo alfaces, repolhos,
tomate, pepinos, inhames e outros alimentos que vieram enriquecer o cardápio do
povo brasileiro. Aos poucos, como a grande ênfase e o esforço das famílias era
formar os seus filhos, estes começaram a adquirir diplomas universitários,
migrando para as cidades e tornando-se doutores.  Recentemente, tivemos um grande incremento da
aceitação popular pela comida nipônica, com um grande boom de restaurantes de
comidas japonesas popularizando os sushis e os sashimis, de tal maneira que quase
todo brasileiro perdeu o medo de encarar um prato feito com o peixe cru.

Enfim, o que podemos perceber é que, apesar das dificuldades
iniciais, no início do século passado, onde os imigrantes enfrentaram a
barreira da língua, do clima quente, da malária e de outras doenças, além de
outras inúmeras dificuldades de adaptação a um país que ficava do outro lado do
mundo, e tinha costumes e hábitos totalmente diferentes, aos poucos eles foram
se adaptando e se integrando à sociedade brasileira. Hoje, já na quarta e
quinta geração de descendentes, a colônia (comunidade fechada para preservar as
tradições, a cultura e a língua japonesa), praticamente  perderam o sentido de sua existência e os
descendentes ocupam cargos e postos em diferentes níveis, além de continuar
contribuindo para o constante progresso do país, principalmente na agricultura,
nas profissões liberais e em outros postos de trabalho.

publicado por drtakeshimatsubara às 09:44 | comentar
25
Dez 11

MOTOCICLETAS II

MOTOCICLETAS II

 

Andar de motocicleta, nos dias de hoje, parece um sinônimo
de suicídio. Mas, ao lado de pessoas que deixam suas bicicletas de lado, ou que
se cansam de andar nos ônibus, e se apertam para pagar uma mensalidade de R$
200,00 por mês para comprar sua Biz ou CG, ao lado desses motociclistas
utilitários, temos também uma legião que compra a moto por puro lazer.

Como objeto de diversão de gente grande, cada vez mais
pessoas compram suas motos de maior cilindrada, para poder se reunir nos moto
clubes, para compartilhar sua paixão sobre duas rodas, realizando encontros em
cidades distantes, onde o maior prazer é poder subir em sua moto, encher os
alforjes e as mochilas com roupa e se juntar a um grupo que viaja por este
Brasil afora, em grandes grupos de dezenas (às vezes centenas, milhares de
motos) para realizar encontros, onde o que menos conta é o destino final, e sim
a viagem em si, o curtir o passeio, em geral cada motociclista acompanhado de
suas esposas, namoradas ou filhos na garupa, gerando um movimento importante
que move uma roda milionária, com sua cadeia de negócios, como estandes  nestes encontros, onde se encontra diversos
materiais ligados à motocicleta, como roupas, adereços, botas, capacetes,
jaquetas, camisetas, etc. Ao mesmo tempo, esses moto encontros geram um
movimento que lotam os hotéis e restaurantes das cidades que sediam os eventos.

Ser membro de um moto clube, muitas vezes é uma honraria,
com um ritual de passagem, que consiste inicialmente de um período de
observação do candidato, para saber se aquele elemento se adéqua ao convívio
com o grupo, se ele não bebe demais e causaria algum desconforto aos membros
do  clube. Depois de aprovado, o membro
passa por um ritual de iniciação, para finalmente poder receber o seu colete,
que é o símbolo de que aquele sujeito faz parte de um grupo.

O cinema americano criou um mito, de que os moto clubes são
repletos de sujeitos mal encarados, barbudos, tatuados, arruaceiros que, quando
chegam às cidadezinhas, apavoram a população, causando mil problemas e quebra-quebra.
Nada mais falso e estereotipado.

Os moto clubes, em sua 
maioria, são repletos de pessoas de família, que reúnem as esposas,
filhos e filhas, avós e outros, em viagens verdadeiramente familiares, onde
reina um clima familiar e respeitoso, de muita amizade e camaradagem.

As viagens são um passeio e tem suas regras, como paradas
previamente combinadas, em postos para abastecimento das motocicletas, pois
estas têm uma autonomia menor que os automóveis, em geral a cada 150 a 200 km são
necessários parar para abastecer os tanques, que em geral comportam de 12 a 20
litros de gasolina.

Existem também regras de segurança, com uma distância mínima
entre as motos, a maneira correta de se fazer as ultrapassagens, o
companheirismo, com o sujeito que vai à frente, ditando a velocidade, o ritmo,
avisando sobre a existência de buracos na pista, a presença de animais ou outro
objeto que cause perigo ao grupo.

Quando não estão viajando, os membros do moto clube se reúnem
para festejar, comemorando datas festivas, ou promovendo atos de beneficências,
como visitas a creches, asilos, distribuição de cestas básicas, etc.

Como se vê, andar de moto, ser membro de um moto clube e
participar da vida em duas rodas, é uma atividade que vem se espalhando e se
generalizando por todo o país, criando uma geração de pessoas irmanadas por um
mesmo propósito: fazer poeira nas estradas, viver em um grupo de pessoas com
propósitos semelhantes e interesses comuns e também compartilhar as alegrias e
vicissitudes de ser membro de um grupo.

Por tudo isso, andar de moto, apesar dos inúmeros perigos
que ela encerra, tem se popularizado, dia a dia e se tornou extremamente comum
vermos grupos de motociclistas viajando pelas estradas, unidos em turmas numerosas,
fazendo seus passeios e nos confraternizando nos diversos encontros motociclísticos
pelo país afora.

publicado por drtakeshimatsubara às 19:34 | comentar
20
Jul 11

MOTOCICLETA

MOTOCICLETA

 

Quando eu era estudante de medicina, na década de oitenta,
meu sonho de consumo era poder comprar uma motocicleta, pois tinha que andar a
pé, de ônibus, trem e metrô, para todo lado, perdendo um tempo precioso
naqueles meios de transporte sempre lotados, sujos, com longas esperas nas
filas nos pontos de ônibus ou estações, à espera de uma condução que estava
quase sempre atrasado. Diante das minhas constantes queixas, minha família
tinha concordado em me deixar comprar uma motocicleta de 125 cc que era meu
sonho. Porém, quando eu já tinha oficializado o pedido,  na loja Fórmula G, próximo à estação de trem
de Santo Andre, SP, veio a ducha fria e a proibição de comprar minha motoca.

Eu me lembro de ter chorado de raiva e frustração diante da
negativa da minha família. Fiquei longo tempo sonhando com o dia em que
compraria a minha tão sonhada e desejada motocicleta. Mudei-me para Dourados,
comecei a trabalhar como médico,  casei,
tive filhos e o sonho foi ficando para um segundo plano, pois as responsabilidades
eram muitas. Imagine só comprar uma moto, sofrer um acidente, ficar aleijado ou
morrer, deixando o ônus da criação dos meus filhos para uma pobre viúva? Que
irresponsabilidade é essa? Fui tocando a vida, assumi diversos cargos, entrei
para a política, como secretario municipal de saúde de Dourados.  Sofri um massacre total da imprensa e dos
meios de comunicação, por tentar enfrentar grupos poderosos que haviam se
apoderado do sistema de saúde e faziam todo tipo de negociata, para
enriquecimento ilícito. Sofri um infarto do miocárdio, aos 40 anos de idade.
Isto me permitiu refletir sobre a minha vida até então. Será que valeria a pena
viver correndo atrás de sonhos, adiando a realização dos mesmos, em nome de uma
responsabilidade familiar? Esperar a aposentadoria, para aí então colocar em
prática os objetivos sonhados por um longo tempo, como comprar uma moto, um motor
home, viajar pelo mundo? Esperar ficar velho, com reumatismo, dores na coluna?
E aí, será que eu poderia curtir a vida após ter os filhos criados? E se morrer
antes, levarei para o túmulo esses sonhos longamente acalentados? Enfim após
essas reflexões, tirei minha carteira para dirigir motos, após levar pau por 4
vezes.  Comprei enfim a minha tão sonhada
Harley Davidson.

Andar de moto é algo que não dá para definir com palavras. É
uma loucura você imaginar, nos dias de hoje, em que os automóveis vêm com ar
condicionado, direção hidráulica, bancos de couro, câmbio automático e outras
comodidades, você andar num veículo de duas rodas, cuja lógica é você cair,
pois o equilíbrio é sempre instável. Nos dias de calor, você toma aquele bafo
quente que sobe do asfalto fervente, que  te cozinha, com aquelas roupas de couro preto.
Nos dias de chuva, você toma água por todo lado, mesmo com a capa de chuva mais
moderna, aquelas gotículas teimam em penetrar pelas frestas das costuras,
molhando você da cabeça aos pés. No frio, por mais agasalhado que você esteja,
com segunda pele, com luvas, boina e o diabo, tem sempre aquele buraquinho por
onde penetra aquele ventinho gelado, que congela até sua alma.  Enfim, é uma coisa de louco tudo isso, pois
com tudo isso, em cima de uma moto, tem um sujeito que está sorrindo, de orelha
a orelha, cheirando a fumaça dos caminhões, levando fechada dos automóveis,
sendo jogado para o acostamento nas ultrapassagens indevidas de caminhões e
automóveis, que sempre consideram que a motocicleta não faz parte do trânsito e
sua presença é sempre indesejável. Dá para entender?

Claro que não faz parte do arrazoado das pessoas comuns entenderem
todas estas contradições. Só mesmo sendo masoquista, para achar legar passar
por todo este desconforto e curtir a viagem.

Quando vejo um motociclista em sua moto de trilhas, cheio de
barro, poeira, com suas roupas imundas, com as botas todas enlameadas, onde a
única parte menos suja é ao redor do olho, por causa dos óculos de proteção, aí
até eu acho demais. Mas tem uma infinidade de pessoas cujo lazer é pegar uma
trilha com os amigos, no final de semana, andar pelo meio do mato, sofrendo quedas
e mais quedas, cruzando riachos, subindo morros e fazendo mil outras estripulias.

Enfim, a explicação que encontrei para tudo isso é que o
motociclista é a reencarnação moderna do cavaleiro e andar de moto é
transportar para os dias de hoje, as longas viagens a cavalo, em cima de uma
sela, cruzando este mundão de meu Deus sem rumo e sem destino.  A sensação de liberdade, do vento na cara,
somente andando de moto é possível de ser reeditada. Por isto, mais e mais
pessoas compram suas motocicletas, aos milhões. Alguns compram pela comodidade
de enfrentar o trânsito das grandes metrópoles, onde somente sobre duas rodas,
é possível tentar fugir dos congestionamentos monstros, que tomam várias horas
por dia dos cidadãos em seus automóveis. Outros compram por puro lazer, dentre
os quais me incluo, e andam com suas motos, nos finais de semana, nos passeios
com os membros de moto clubes em longas viagens pela estrada afora.

Andar de moto é perigoso? Com certeza é muito perigoso. Na
grande São Paulo, um motociclista  morre
todos os dias. Dezenas, centenas e milhares lotam os hospitais de urgência e
emergência, com fraturas, traumatismos e múltiplas seqüelas dos acidentes, que
quando não são fatais, deixam o cidadão inválido ou sem poder trabalhar por um
longo tempo.

Ao se fazer um estudo estatístico, vemos que a grande
maioria deles são motociclistas jovens, dos 18 aos 29 anos de idade, com pouco
tempo de habilitação e que há pouco puderam adquirir sua moto. E por que isso
ocorre? Na grande maioria das vezes, os jovens são imprudentes, sentem-se
invulneráveis, imortais e que por mais que arrisquem, nunca irão sofrer um
acidente. Invariavelmente, eles acabam se envolvendo em algum incidente  que pode ser grave a ponto de deixar seqüela
ou mesmo tirar sua vida.

Outro problema que contribui para tantos acidentes  nesta faixa etária é a total irracionalidade
que é o sistema de formação das nossas moto-escola que não ensinam
absolutamente nada sobre as técnicas de pilotagem sobre duas rodas, suas
peculiaridades, seus riscos, e idiossincrasias. Quando se vai tirar carta de
moto, você perfaz um percurso de algumas dezenas de metros, que consiste de um
traçado que consiste de alguns oito, uma volta, uma reta, enfim, você ter que
completar um percurso numa pista sem colocar os pés no chão. E pronto. Se você
completou esse percurso, você está autorizado a comprar uma superesportiva de
mais de mil cilindradas, com 200 cavalos de potência e que corre a mais de 300
km/h. Basta ter dinheiro para comprá-la.

Portanto, é urgente que o poder público e a sociedade
rediscutam esse modelo de formação do motociclista, aumentando o número de
aulas teóricas, sobre legislação de trânsito, mudando o sistema da Avaliação
prática, para percursos no trânsito real, como os automóveis. Além disso, é
necessário revisar a classificação da habilitação, limitando a cilindrada
permitida, conforme os anos de experiência com a motocicleta. Por exemplo, no
primeiro ano, apenas motocicletas até 125 cc de cilindrada. Depois, 250 cc no
segundo ano, 500 cc no terceiro ano, etc., para que o acesso às motos
esportivas, de 200 HP, fosse o último degrau, após ter adquirido nas
cilindradas menores.

Talvez assim, tenhamos uma melhora da imagem da motocicleta,
junto ao público geral, de um instrumento assassino, uma máquina de moer gente,
para um meio de transporte, prático, ágil, inteligente e, se Deus quiser, seguro.

Para isso, temos muito que caminhar, pois hoje, o acidente
com motocicleta se tornou uma verdadeira epidemia, um grave problema de saúde
pública, a onerar nosso pobre sistema de saúde, tirando recursos do atendimento
preventivo e do sistema previdenciário, causando um verdadeiro caos nos Prontos
Socorros e nas enfermarias de Traumatizados.

publicado por drtakeshimatsubara às 14:28 | comentar
16
Jun 11

RESISTÊNCIA BACTERIANA

RESISTÊNCIA BACTERIANA

 

Vivemos num mundo que passou por uma grande revolução, após a descoberta da penicilina, por Alexander Fleming, em 1929. Até aquela data, as pessoas morriam quando eram acometidas por infecções, principalmente a tuberculose, as gangrenas e outras doenças causadas por um ser minúsculo, a bactéria. Fleming, ao estudar o fungo Penicillium sp, fungo comum no bolor de pão e outros alimentos, descobriu que esta produzia uma substância que matava bactérias. Ao isolar esta substância, descobriu a penicilina, antibiótico dos mais importantes até os dias de hoje.

As bactérias são capazes de desenvolver resistência contra um ou vários antibióticos, seja através da produção de enzimas que inativam as mesmas ou mesmo impedindo que as substâncias cheguem até elas e as matem.

Uma forma de resistência bacteriana muito comum que vem ocorrendo nos nossos dias é a produção de enzimas que destroem os antibióticos. Por exemplo, um antibiótico muito comum é a amoxicilina, derivada do grupo das penicilinas. Pois bem, as amoxicilinas possuem em sua estrutura molecular um anel, chamado anel beta-lactâmico.

 

 

Pois bem, a estrutura molecular que tem a forma de um anel, nestes diversos antibióticos, é a base principal da molécula do antibiótico. As bactérias passaram a produzir uma enzima, capaz de quebrar este anel, chamado betalactamase e, com isso, desativar a ação destes antibióticos.

Considerando que as bactérias existem na terra há bilhões de anos, e que os humanóides existem há alguns milhões de anos, adivinha quem irá vencer essa guerra?

O uso indiscriminado e injustificado dos antibióticos, tem contribuído para queimá-los e com isso, aumentar as cepas de bactérias resistentes a elas. Quando eu me formei, há 25 anos atrás, antibióticos como sulfametoxazol, eritromicina, ampicilina e amoxicilina eram substâncias que você prescrevia bastante, pois eram eficazes. Passados menos de um quarto de século, a maioria deles hoje são quase inúteis, pois a maioria das cepas bacterianas são resistentes ao mesmos. Com isso, somos obrigados a usar antibióticos mais caros, que associaram outras substâncias, como clavulanato, sulbactam,  tazobactam e outras, que são substâncias que inibem a ação das enzimas betalactamases das bactérias .

 

 

A pergunta é: Até quando?

A corrida armamentista no século XX, consistia no seguinte. Os EUA produziam um arsenal de bombas nucleares e a União Soviética corria atrás, produzindo mais bombas, para equilibrar o jogo. Aí, os americanos inventaram a bomba de hidrogênio, que também foi copiada pelos soviéticos. Idem com a bomba de nêutrons. Enfim, chegamos a um ponto que, se todas as bombas fossem usadas, teríamos a destruição total do nosso planeta e ninguém venceria essa guerra.

Com as bactérias, o jogo é mais complicado. Quando descobrimos mecanismos de neutralizar a ação de suas enzimas, elas logo sofrem uma mutação e passam a produzir outra substancia capaz de neutralizar a ação dos antibióticos. É o que tem ocorrido nos últimos tempos, em que bactérias antes não tão agressivas, como a Escherichia coli, comum em nossas fezes sofre mutação, tornando-se resistente a todos os antibióticos conhecidos e causando dezenas de mortes na Europa, ou então as bactérias ditas assassinas, que têm surgido nas UTI de diversos hospitais mundo a fora, causando muitas mortes.

Uma atitude da ANVISA, de obrigar a prescrição de antibióticos apenas por profissionais médicos ou dentistas, em duas vias, com a receita ficando retida nas farmácias, para prestação de contas dos lotes vendidos, é uma tentativa de inibir uma prática que durante décadas foi comum Brasil afora, do balconista de farmácia empurrar antibióticos para qualquer febre. Em virtude das deficiências do sistema de saúde, era mais fácil para a população procurar o  “Seu Zé”da farmácia da esquina, que olhava a garganta e dizia que estava inflamada e prescrevia um antibiótico, juntamente com um antiinflamatório, um antitérmico, xarope para tosse, etc.

Mas, mesmo assim, ainda temos muito que caminhar até conseguirmos um uso racional do antibiótico. 90% das febres são causadas por vírus. Contra elas, os antibióticos são totalmente ineficazes. Mesmo assim, a grande maioria dos profissionais de saúde prefere prescrever um antibiótico, com medo de a infecção evoluir mal e causar um processo por erro médico, comum nos dias de hoje.

Portanto, esta é uma guerra em que, quase que certamente, nós um dia iremos perder para as bactérias, pois sua capacidade de adaptação e mutação é muito maior do que nossa capacidade de criar substâncias capazes de inativá-las. Cabe a nós, portanto, adiarmos o quanto pudermos esse desenlace final, usando os antibióticos de maneira racional e somente em casos em que elas realmente se fazem necessárias, para tentarmos preservá-las ao máximo, tentando evitar que se tornem resistentes aos nossos antibióticos.

publicado por drtakeshimatsubara às 14:38 | comentar | ver comentários (4)
26
Mai 11

ANTIBIÓTICOS

ANTIBIÓTICOS

 

Passamos ultimamente por um periodo de pouca inspiração para escrever. A criatividade não vem, e as idéias para escrever um texto para vocês andaram em baixa. Mas, como dizem os blogueiros profissionais, o maior pecado de um blog é você deixar de escrever, pois o interesse dos seus leitores ocorre na proporção direta da quantidade de textos que se escreve.

Uma das perguntas freqüentes que nós ouvimos dos pacientes  é com relação a homeopatia x alopatia. Se o uso de medicamentos homeopáticos, proíbe o uso de medicamentos tradicionais. A resposta é: NÃO. O uso concomitante de remédios homeopáticos com o uso de antibióticos, antitérmicos, antiinflamatórios e outros, não causam nenhum tipo de problema. Eles atuam em campos e locais totalmente diferentes, de modos totalmente diferentes.

O medicamento homeopático atua seguindo as leis da física, ou seja, ele é um medicamento energético. Nós dizemos que o medicamento homeopático funciona como um gatilho, que desencadeia toda a cascata de reações imunológicas, que ocasiona a cura das doenças. Nas reações químicas, nós aprendemos no colégio a figura do catalisador, o elemento que entra na reação e desencadeia a cascata de reações químicas que culminam em algum novo elemento químico. Pois bem, o medicamento homeopático é esse catalisador.  Ele funciona como se fosse um pequeno choque, que desencadeia uma série de reações, que culminam na recuperação da saúde do paciente.

Já o medicamento tradicional, alopático, funciona quantitativamente, ou seja, a quantidade em miligramas por volume de sangue leva o medicamento a ser distribuído por todo o corpo, até que ele chegue ao local onde tem que atuar. Se tivermos uma infecção de garganta, ao tomarmos um antibiótico, ele é absorvido pelo sistema digestivo, entra na corrente sanguínea e se distribui por todo o corpo, até que uma parte dela chega às amígdalas doentes, matam a bactéria que está causando a infecção e temos assim a cura. Como vocês já puderam perceber, para termos uma quantidade suficiente para atuar na garganta, ele se distribuiu por todo o resto do corpo, ou seja, ele foi ao fígado, ao rim, ao cérebro, pulmão, etc, e apenas uma pequena parte foi para o local desejado que era a amígdala. Com isso temos a grande quantidade de efeitos colaterais ou indesejados, quais sejam,  o uso do antibiótico provoca reações adversas, como náuseas, vômitos, diarréia, reações alérgicas na pele, etc, porque ele se distribuiu por locais onde não era necessário.

Outro problema que tem tirado o sono dos médicos e pesquisadores em relação aos antibióticos, é que o uso indiscriminado, tanto pela população, como pelos próprios médicos, tem causado uma corrida cada vez mais perigosa, entre o remédio e a bactéria, pois esta última, para se defender, lança mão de diversos mecanismos de resistência, a famigerada resistência bacteriana, de tal maneira que é necessário se lançar antibióticos cada vez mais potentes, de última geração, para matar as bactérias, que se defendem, criando uma série de mecanismos de resistências, passando a resistir à ação daquele antibiótico. Vai chegar um momento em que o antibiótico mais potente não vai conseguir matar a bactéria, e aí, nós teremos um problema realmente sério, que poderá causar a dizimação em massa da população humana. No final das contas, poderemos perder a guerra contra as bactérias. Para tentar amenizar esse risco, é necessário o uso racional dos medicamentos, saber  o quanto eles são importantes, mas com uso correto e no momento em que eles realmente sejam indicados.

 

Houve um grande avanço em nosso, país, pois a Anvisa agora exige a venda do antibiótico com receituário médico, em duas vias, ou seja, acabou, ou pelo menos, está se tentando acabar com a empurroterapia dos balconistas de farmácia, que permitiram o uso indiscriminado e desnecessário do antibiótico.

Agora, é preciso que os médicos façam a sua parte e prescrevam o antibiótico quando realmente necessário. Uma das grandes causas da queima dos antibióticos foi o uso desnecessário de antibióticos para doenças virais. Nas viroses, que representam mais de 90% das doenças febris em crianças, o antibiótico, além de desnecessário, é inútil, pois eles não atuam sobre aqueles seres vivos.

Com o uso racional e mais consciente dos antibióticos, poderemos ter, quem sabe no futuro, um risco menor de termos  “super-bactérias”resistentes a tudo, com de vez em quando tem ocorrido em alguns ambientes hospitalares.

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16
Mar 11

OS TEMPOS SÃO CHEGADOS

OS TEMPOS SÃO CHEGADOS

A Bíblia, no Apocalipse de João, previa, há milhares de anos, que haveria uma época, onde os tempos seriam chegados, onde a humanidade passaria por muito choro e ranger de dentes, um final dos tempos, onde a humanidade, como nós a conhecemos, iria passar por uma grande crise, ao final do qual, ressurgiria uma nova humanidade, mais justa, mais humana, mais fraterna.

Os fatos recentes que têm ocorrido no mundo todo são um claro sinal de que algo muito diferente está ocorrendo em nosso planeta. As mudanças no clima, os maremotos, os terremotos, as erupções vulcânicas, os tornados, furacões, chuvas torrenciais e enchentes, enfim, a natureza tem reagido de forma violenta, causando muitas mortes e grandes tragédias que vitimam populações inteiras, com desencarnes em massa.

Além disso, a violência a brutalidade e a maldade parecem ter se tornado uma doença social, com pais estuprando seus próprios filhos, filhos assassinando pais, assaltos violentos, seqüestros, enfim, uma maldade que parece não ter fim.

Segundo as explicações dos espíritos superiores, a humanidade está passando por uma mudança de fase. Estamos passando por uma segunda época, onde alunos retardatários e atrasados estão tendo a última chance para merecer continuar neste planeta. É como se as portas do inferno tivessem sido abertas, para que os espíritos mais atrasados tivessem a sua última chance de reencarnar no planeta, para poder melhorar e continuar aqui vivendo. Mas, como temos visto, a grande maioria está desperdiçando essa última chance e sendo reprovados aos montes. Não conseguem vencer o seu instinto de espíritos atrasados, e cometem todo tipo de crime, formam verdadeiras falanges de espíritos assemelhados no mal, para praticar o crime, incentivar o consumo de drogas, o sexo desenfreado, a corrupção, o mercantilismo e a avareza, causando o apego ao vil metal e, em nome deste, matando, roubando, vilipendiando.

Os reprovados neste exame de segunda época estão sendo transferidos para um planeta mais atrasado, ainda na idade da pedra, onde esses irmãos mais atrasados irão reencarnar, levando o conhecimento e as reminiscências de um paraíso perdido para ajudar o planeta e os seus habitantes a evoluir e alcançar os seus intentos.

Tal fato já ocorreu no nosso planeta, há uns 25 mil anos atrás, quando espíritos exilados de um planeta, chamado Capela, da constelação do Cocheiro, migraram para a Terra, ajudando os nossos habitantes das cavernas no seu desenvolvimento, levando ao florescimento das civilizações do passado, como a egípcia, a chinesa os maias, astecas, e outros.

O ciclo está se fechando e os últimos acontecimentos do Japão são um prenúncio desta fase difícil que se aproxima. A ocorrência do terremoto de 9 graus na escala Richter, seguido de um tsunami sem precedentes que ocasionou dezenas de milhares de mortes, além da destruição de várias usinas nucleares, com risco muitíssimo elevado de um acidente nuclear sem precedentes, com vazamento de radioatividade, é um claro sinal de que tais fatos irão ocorrer daqui para frente, de forma mais e mais freqüente. Além disso, todo japonês sabe que existe uma grande possibilidade de ocorrer um grande terremoto, chamado Tokkai Dishin (terremoto gigante), que irá destruir o país e dividí-lo ao meio, antes de afundar todo o país no mar. Além disso, nos Estados Unidos, é esperada a erupção de um grande vulcão, que destruirá praticamente todo o país, associado a terremotos e maremotos.

O Brasil, segundo esses espíritos superiores, é o país que menos irá sofrer com as mudanças. Este será uma espécie de porto seguro, para onde milhares e milhares de feridos, serão trazidos em navios e aviões, para serem socorridos e tratados. Os países hoje tidos como adiantados, como os Estados Unidos, o Japão, a Europa, a China, o Oriente Médio e os países da Oceania, irão sofrer as maiores mudanças. A humanidade, durante milhares de anos, brincou com coisas muito perigosas, como as drogas, a energia nuclear, a poluição e o envenenamento do ar, da água, do solo com seus venenos, com a exploração e queima do petróleo e seus derivados, do carvão, o desmatamento, a destruição da natureza, a extinção de espécies inteiras de animais, plantas, e outros seres vivos. Chegou o momento de a natureza apresentar a sua conta, a sua cobrança, a sua fatura.

O Brasil aparece como um país construído aos poucos, de uma forma peculiar, ao juntar, dentre todos os países da Europa, o português, cujo passado, com as invasões mouras e a formação do seu povo através da miscigenação, ocasionou um europeu menos preconceituoso e mais aberto às mudanças que os seus vizinhos. Ao português, somou-se o negro africano, com sua multiplicidade de culturas e tribos, das mais diversas regiões, que foi trazido como escravo. O índio, nativo local, com seus conhecimentos místicos, com sua cultura própria contribuiu para formar um povo mestiço. Aos poucos, vieram novas levas de europeus (italianos, alemães, poloneses, holandeses), de árabes, japoneses, judeus e outros povos, que, mesmo que em seus países de origem fossem extremamente conservadores e avessos à miscigenação, aqui encontraram um caldo cultural aberto às mudanças, à novidade. Temos comunidades de árabes, onde a grande maioria está miscigenada. Temos em São Paulo, comunidade de árabes e judeus convivendo pacificamente, companheiros de negócios sem radicalismos e sem rancores étnicos. A comunidade japonesa no Brasil, a maior colônia de japoneses fora do seu país de origem, hoje se encontra francamente miscigenada, tendo contribuído com vários traços de culinária, de costumes, tendo trazido um grande desenvolvimento para a agricultura e o plantio de hortaliças, legumes e frutas.

 Apesar de todo brasileiro reconhecer os seus defeitos, as suas falhas, depreende-se que a grande maioria delas é decorrente de nossa baixa escolaridade, dos poucos anos de estudo. O desenvolvimento de noções de cidadania, de respeito às regras, às leis, virão aos poucos, conforme nosso povo for sendo educado e aprofundando o seu grau de conhecimento. Este país multicolorido, multirracial e multicultural, será o grande líder do nosso planeta, nesta fase de mudança pela qual ela passa. A generosidade, a fraternidade e a solidariedade que caracterizam o nosso povo, serão fundamentais nesta fase de mudanças, onde nós receberemos de braços abertos os famintos e doentes que sobrarem deste grande cataclismo que se avizinha a passos largos.

O nascimento de crianças espiritualmente avançadas, ditas crianças índigo e crianças cristal, é uma confirmação de que o ciclo irá continuar e que o fim do mundo não será um aniquilamento de toda a humanidade, mas apenas um processo de depuração, que, uma vez terminada, irá gerar um planeta muito melhor, com o fim do sistema capitalista e suas injustiças, originando um mundo onde as trocas serão feitas pelo valor intrínseco de cada produto, acabando com uma era de desigualdade, onde uma tonelada de arroz tem valor menor que um telefone celular. Será um mundo que será governado pelas mulheres, pois estas são muito mais evoluídas que os homens. Deixaremos para trás uma era onde imperou a força bruta e a Lei do mais forte, por uma era governada pela justiça, pela ética e pelos princípios morais.

Estejamos preparados, pois os tempos são chegados.

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01
Mar 11

PROFESSOR TSUGUIO WATANABE

TSUGUIO WATANABE Ao longo desta vida, tive a felicidade de ser adotado por diversos pais, que, ao lado do meu pai biológico, completaram a minha formação como pessoa e cidadão.

Até os meus quinze anos, tive em minha família a base da minha formação, com a minha mãe me ensinando os valores da ética, da moralidade, dos conceitos do certo e do errado. Meu pai, então, era uma figura que participava de forma um pouco mais distante deste meu processo formativo. Seu ensinamento se dava através do exemplo e de seus atos, que nós, seus filhos, aprendíamos na prática, não através de conceitos e palavras, pois era um homem pouco afeito à oratória, sendo mais de ouvir e fazer do que propriamente de falar. Mas mesmo assim, aprendi muito com meu pai.

Aos quinze anos, saí de casa, para estudar em São Paulo. Fui morar na Casa de Estudantes Harmonia, em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Esta instituição era mantida pela colônia japonesa, que tinha fundado a “Sociedade Amigo dos Estudantes de São Paulo”, entidade mantenedora da casa, através do auxílio de grandes empresas japonesas e nikkeis instalados na Grande São Paulo e que fornecia os recursos para o funcionamento daquela instituição, que em seu auge, chegou a abrigar mais de 200 estudantes, de ambos os sexos, principalmente universitários, das mais diferentes localidades do Brasil, (e alguns do exterior), que iam estudar na Grande São Paulo.

Após uma direção de mais de 25 anos do Professor Hideto Futatsugui, que fora o fundador daquela instituição, este, ao aposentar, cedeu lugar ao Professor Yuji Ogassawara, figura bondosa, mas sem autoridade para dirigir uma casa com mais de 200 estudantes, no esplendor dos hormônios à flor da pele. Com isso, uma série de problemas de ordem disciplinar começou a ocorrer, ultimando com sua demissão. Para substituir o Professor Ogassawara, foi chamado o Professor Tsuguio Watanabe, que havia vindo do Japão para se tornar professor de língua japonesa na região de Araçatuba, SP. Este se encaixou como uma luva no papel de diretor da Casa de Estudantes, pois possuía o carisma e a autoridade necessários para dirigir a instituição e, principalmente, ajudar a formação de jovens.

Eu me lembro que gostava muito de procurar o Professor Watanabe sempre que tinha um tempo disponível, entre as aulas na Faculdade de Medicina. Ele me contava sua história, pois havia nascido e estudado no Japão, quando resolveu tentar a sorte no Brasil. Ele contava que na época, tinha uma namorada, por quem estava apaixonado e de quem se despediu, pedindo para que o esperasse por dois anos, que juntaria dinheiro e iria buscá-la para se casarem e virem morar no Brasil. Porém, passados os dois anos, quando ele voltou ao Japão para buscá-la, ela já havia arranjado outro homem com quem se casara. Ele me contava que sua decepção fora muito grande, que havia se escondido no meio do mato para chorar copiosamente e, a partir daquele instante, perdera a confiança nas mulheres. Voltara ao Brasil, conhecera a Dona Elisabete e, quando resolveram se casar, ele contou sua história e sua decepção. Que ele não tinha nada absolutamente a oferecer para ela, em termos materiais. Que iriam começar absolutamente do zero. Ele contava que, cada talher, cada panela que compravam, tinha um sabor muito especial. Que haviam cozinhado em latas de banha de porco, pois não tinham panelas. Que construíram uma vida, a partir do nada e cada objeto tinha uma história, conjunta, participativa. Aliás, a Dona Elisabete era uma mulher maravilhosa, de muita fibra, corajosa, apaixonada pelo marido e pela vida e que foi a grande companheira por toda a vida, que dera a estabilidade, que freava o marido quando precisava e que dava força quando ele estava enfraquecido, enfim, uma pessoa fundamental na vida do Professor Watanabe e que contribuiu de forma decisiva para tornar o marido o grande homem que o foi.

Tiveram quatro filhos homens, e ele, como professor de japonês, tinha também um programa de rádio em Araçatuba. Ele dizia que gostava de formar pessoas, gostava de conversar com jovens, para torná-los adultos idealistas, que contribuíssem para tornar o mundo melhor.

O professor Watanabe tinha um carisma e uma liderança naturais, de tal maneira que, seja falando com pessoas humildes, ou com autoridades, ele magnetizava as pessoas e possuía uma ascendência enorme, sendo um grande formador de opinião. Pude participar de algumas reuniões dele com presidentes e diretores de bancos importantes, como o Banco de Tókio, o Banco America do Sul, enfim, empresas que tinham milhares de funcionários, mas que, ao conversar com o Professor, tinham um grande respeito por ele e ouviam atentamente as explanações que ele fazia.

Dizia que nós precisávamos criar escolas para formar mães. Que elas são a base da família, o principal elo dos membros de uma família e que, dependendo da qualidade e liderança dessas mães, teríamos famílias melhores e, por conseguinte, cidadãos melhores e uma sociedade melhor.

Citava o exemplo de grandes líderes, como Soichiro Honda, fundador da Honda, e do Sr. Shinji Nishimura, fundador da Jacto, em Pompéia, SP, aos quais, dentre muitos outros que ele citava, atribuía uma grande liderança e principalmente a capacidade de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor. Dizia que essas pessoas não tinham apenas fundado empresas para construir máquinas, mas que o fundo filosófico dessas pessoas, tinha contribuído para tornar o mundo um lugar melhor para se viver e que suas empresas não eram apenas para gerar lucros, mas sim para contribuir para a melhoria da vida das pessoas.

O professor Watanabe dizia que as pessoas, ao passar pela vida, precisam deixar rastros. Que a vida não pode se resumir em ganhar dinheiro. Aliás, ele dizia que o dinheiro não era importante para a felicidade das pessoas. Que nós, seres humanos, temos que influenciar positivamente os outros, para que possamos deixar uma palavra, um pensamento ou uma idéia, nem que seja em apenas uma única pessoa no mundo, para que isto seja uma semente para contribuir para um mundo melhor. Que, ao terminarmos nossa jornada na terra, ao olharmos para trás, possamos ver que deixamos nossa marca por onde passamos, seja pela palavra, pelo amor ou por nossas obras.

Eu tive a honra de tê-lo como padrinho do meu casamento com a Silvia. Ele sempre me estimulava a liderar as pessoas. Dizia que eu tinha uma liderança nata, que deveria utilizar para o bem comum, nunca para proveito pessoal ou material. Ele dizia que em nossa vida, devemos lutar para defendermos e tornarmos os sonhos realidade.

Ele era uma pessoa incrível, aberto às novidades e que tinha a capacidade de perceber e lutar pelas utopias por mais irreal que ela parecesse às pessoas comuns.

Foi, sem dúvida, uma das pessoas chaves na minha formação, num momento crítico do meu final de adolescência e início da maturidade, pois conviver e aprender com ele, permitiu que eu me tornasse uma pessoa melhor, mais idealista, mais sonhador e também, mais humano. Era uma pessoa que defendia o humanismo, como filosofia de vida. Para ele, o ser humano tem que amar o outro ser humano, independente de sua condição social. Dizia que a riqueza material é algo passageiro e ilusório, que podemos ter muito dinheiro um dia, para no outro, perder tudo, num negócio arriscado, numa mudança repentina da economia ou por uma guerra. Mas que aquilo que carregamos dentro de nós, o conhecimento, os valores éticos e morais, os princípios que norteiam os bons e grandes homens, estes não nos podem ser retirados, haja o que houver. Por isso, ele sempre pedia para avaliarmos o ser humano por sua riqueza espiritual, nunca pelo material. Dizia que os grandes seres da humanidade, como Jesus, Gandhi, Buda e tantos outros, eram totalmente desprovidos do material, mas de uma enormidade do ponto de vista espiritual.

Acredito que ele foi fundamental até mesmo na minha profissão médica, pois graças aos seus ensinamentos, pude me tornar mais humano, menos preocupado com o dinheiro. Ao longo da vida, pude perceber o quanto seus ensinamentos eram corretos, pois realmente, o dinheiro é uma conseqüência do nosso labor, vindo para nós na medida das nossas necessidades e do nosso merecimento. Não é preciso brigar por ele, que Deus nos manda o pão, na medida da nossa fome. Atender sem distinção o rico e o pobre, a autoridade e o trabalhador mais simples, a madame e a empregada doméstica, isso tudo, só foi possível, baseado em seus ensinamentos.

Com ele, pude aprender também um pouco da cultura e da história do Japão. Ele dizia que aquele país, devia muito de sua cultura, religião e costumes à China. Que o que diferenciava o japonês e os orientais em geral, do europeu, era que o primeiro, era um povo essencialmente agrícola, que ao longo dos milhares de ano, as tradições da família estavam ligadas àquele determinado pedaço de terra, que era cultivado e cuidado com todo carinho, para permitir às gerações seguintes, continuar o ciclo. Enquanto isso, os europeus e os fundadores da cultura judaico-cristã, eram baseados no pastoreio de ovelhas. Estes conduziam seus rebanhos onde tinham pastos, sem uma ligação direta com a terra, mas sim com os animais, que eram a sua riqueza maior. Este ponto, dizia ele, fazia toda a diferença no modo como ocidentais e orientais lidam com a tradição, com os valores morais e religiosos, principalmente o culto aos antepassados que é a base das religiões budistas e xintoístas, que caracterizam os japoneses.

Ele me contava que um indivíduo, ao agir com dolo ou má-fé, manchava o nome da família, que ficava maculado para sempre. Por isso, todos tinham o cuidado máximo de agir de modo que não sujasse o bom nome daquela determinada família daquela vila ou daquele bairro.

Com ele, pude aprender também a existência de uma mancha no passado do Japão, pouco conhecido do mundo ocidental. Por volta do século XVI, após uma guerra com a Coréia, o Japão levou para seu país um grupo de escravos e prisioneiros que haviam sido derrotados. Estes, formaram bairros onde eram segregados, chamados “Burakumin”, ou “Etas” ou “Quatro dedos”. Como a religião budista é reencarnacionista e diz que os animais têm espíritos, o ato de se matar um animal para comer sua carne, ou manusear seu couro, era considerado uma atividade menos nobre. Como esses burakumin não tinham alternativa, especializaram-se nessas atividades que os japoneses não gostavam de fazer. Hoje, passados mais de quinhentos anos desde a sua origem, esses indivíduos continuam sendo discriminados, pois no Japão é costume se estudar a genealogia, quando de casamentos ou de procura de empregos. Com isso, o casamento com um membro dessa comunidade é uma verdadeira tragédia para a família, sendo proibido e com isso, perpetuando essa prática discriminatória e totalmente sem sentidos para nós, ocidentais.

Outra mancha no passado japonês foi o período que culminou na Segunda Guerra Mundial. Ele dizia que o Japão, por ser uma ilha, era um país que nunca, ao longo de sua história, havia perdido uma guerra. Para a unificação dos feudos, houve uma guerra civil, em que clãs e famílias guerrearam entre si, para que no final, a família Tokugawa assumisse o poder e permitisse a pacificação do Japão, o qual durou mais de 300 anos (de 1500 a 1800, aproximadamente). Neste período, o Japão havia se fechado em si mesmo, não permitindo o acesso de seus portos por navios estrangeiros. Esse isolamento criou um espírito segregacionista e um sentimento de superioridade nos japoneses. No século XIX, quando ocorreu a revolução Meiji, por volta de 1870, de repente o Japão quis tirar o atraso de séculos em poucos anos. Contratou, a peso de ouro, professores e mestres nas diversas especialidades dos países europeus, para criar do nada uma infra estrutura industrial e científica que ele não possuía. Isto tudo está muito bem retratado no filme “O Último Samurai”, com Tom Cruise, onde é mostrado o conflito entre os desenvolvimentistas e os tradicionalistas, sendo que os primeiros saíram vencedores.

A medicina japonesa, por exemplo, foi toda baseada em professores vindos da Alemanha. Até recentemente, as receitas médicas no Japão eram escritas em alemão, sendo que as aulas na faculdade de medicina eram dadas em alemão e os livros médicos e as técnicas adotadas eram todas oriundas daquele país europeu.

O fato é que, em poucos anos, o Japão, de um país essencialmente agrícola e sem nenhuma tradição industrial, transformou-se numa grande potência regional, com somas vultosas sendo despendidas com suas Forças Armadas. Estes soldados, baseados no espírito de superioridade e nacionalismo que era incutido em todos, tornou-se um guerreiro sanguinário e destemido, que causou uma série de ações violentas contra o inimigo, desrespeitando os mais elementares princípios de civilidade, matando civis desarmados, estuprando e violentando mulheres e trucidando os soldados inimigos. Com isto, gerou um espírito de belicosidade e revolta nos países que eram subjugados, principalmente nos chineses e coreanos, que, até os dias de hoje, têm um sentimento de revolta e raiva dos japoneses.

O fato é que ter adquirido esses conhecimentos com o Professor Watanabe me ajudou muito, num momento em que eu vivia num grande conflito interior, devido à minha origem de filho de japoneses morando no Brasil. Isto tudo me ajudou a perceber que é uma grande vantagem poder entender as origens e a cultura que trouxe com meu código genético, mas que, ao mesmo tempo, sou um brasileiro, pois não compactuo e não consigo aceitar as muitas falhas e pontos negativos que esta mesma cultura japonesa carrega no seu bojo, mas que é escondido de todos, para se resumir no falso sentimento de superioridade que caracteriza aquele povo. Conhecer estes lados, fez com que eu assumisse uma identidade própria, que ajuda a enriquecer e a formar uma cultura brasileira, trazendo para esta, conhecimentos, valores morais e espirituais, de tal modo que daqui a algum tempo, tenhamos uma cultura genuinamente brasileira, a soma da diversidade cultural e racial, que traz um pouco das qualidades de cada componente. Poder ser uma peça deste mosaico, ajudar a formar este sentimento de brasilidade, de formador de um país que será, sem dúvida, o grande líder deste século, com uma liderança exercida de maneira humana, fraterna e amorosa para com toda a humanidade. Esta, sem dúvida, foi a grande contribuição que esse espírito de estirpe superior, com quem eu tive a honra e a oportunidade de muito aprender, me ajudou tanto a compreender esses conflitos e permitir que eu pudesse ser um cidadão brasileiro e uma pessoa melhor.

Obrigado, Professor Watanabe. A doença o levou muito cedo, mas temos a certeza de que sua missão foi coroada de pleno êxito e que o senhor deixou marcas profundas nos corações dos seus discípulos e filhos adotivos, como eu.

 

Takeshi Matsubara, médico, morador da Casa de Estudantes Harmonia de 1978 a 1986.

publicado por drtakeshimatsubara às 14:22 | comentar
20
Fev 11

EDUCAÇÃO II

EDUCAÇÃO II Aproveitando o comentário formulado por Ana Helaisa, formulei esta resposta, que passo a compartilhar com os meus amigos. Quando minha esposa Silvia leu o post, “EDUCAÇÃO”, ela detestou, pela cara que fez, pois sinto que ela achou que fui muito condescendente com os educadores, enchendo muito a bola destes profissionais, quando ela, que trabalha na área, sabe que existem poucos bons professores e muitos professores ruins, que não querem saber de aproveitar as formações que lhes são oferecidos, que não querem saber de mudar seus métodos jurássicos de ensinar. São profissionais que vão empurrando a vida com a barriga, um dia depois do outro, esperando a aposentadoria com 25 anos de trabalho, para, aí sim, poderem, talvez, fazer aquilo que gostariam de ter feito, ao invés de dar aulas... Acho que, em todos os setores, temos bons e maus profissionais. Na Educação, temos muitos profissionais frustrados, que não conseguem passar entusiasmo para seus alunos e com isso, acabam prejudicando a formação e o desempenho dos seus discípulos. Mas acho que, conforme disse no Post, nós precisamos daqueles que atuam com a alma, com o coração, antes de serem racionais. Quando atuamos com paixão, entregamos uma energia naquilo que fazemos, que contagiam as pessoas à sua volta. Acho que infelizmente, a idade em que escolhemos nossa profissão, por volta dos 17 a 20 anos de idade, é aquela onde estamos ainda muito imaturos, e escolhemos nossa carreira por impulso, por ouvir dizer, de "orelhada". Na grande maioria das vezes, ao se terminar o curso, a pessoa sente que não era bem aquilo que ela gostaria de fazer a sua vida toda. Mas aí, vem o comodismo de seguir o caminho já inicialmente trilhado, e as pessoas continuam o curso, alguns fazendo mestrado, doutorado e outros avanços profissionais, mas sem o total envolvimento emocional. Com isso, tornam-se professores das faculdades, mas de péssima qualidade. Acho que, nem por isso, devemos achar que a profissão de professor é ruim em si mesmo. Acredito que aquilo que eu escrevi no Post é a minha visão de futuro, de um objetivo a ser alcançado, com o professor sendo muito bem remunerado, valorizado pela sociedade, recebendo uma formação continuada para poder se manter atualizado, aplicando as ferramentas modernas que a computação, as mídias e o uso misturado de velhas ferramentas, poderiam proporcionar ao ensino. Será um sonho termos num futuro próximo, professores de primário que dessem 4 horas de aula em toda a sua jornada de trabalho, com 4 horas para eles aplicarem no seu estudo, que tivessem formação com mestrado, doutorado, pós-doutorado, e pudessem receber uns $10 mil dólares de salário por isso? Será um sonho impossível? Bem, a Coréia do Sul e o Japão estão fazendo isso há uns 40 anos e têm dado certo, caprichando na formação de suas crianças desde o ensino primário, com aulas em período integral, mesclando aulas tradicionais, como português, matemática, física, biologia, etc, com aulas como teatro, dança, música, artesanato e outras, fazendo com que ao atingir o nível universitários seus alunos possam estudar em universidades que são centros formadores de altíssima tecnologia, cuja pesquisa gera conhecimento que são transferidos para as grandes corporações que ajudam a pagar os salários dos professores pelas suas experimentações realizadas. Nós brasileiros, temos um traço cultural que, ao mesmo tempo em que é a nossa fraqueza, é a nossa maior riqueza, ou seja, somos um povo aberto, sem preconceitos, que absorve as culturas que vêm de fora, misturando tudo, naquilo que eu chamo de “sincretismo brasileiro”. Por exemplo, o “sushi”, prato tipicamente japonês, foi incorporado pela culinária brasileira, de tal forma que, em qualquer região do país que se vá, temos um restaurante de comida japonesa. Porém, a característica principal, é que o sushi brasileiro incorporou o tempero brasileiro, acrescentando a manga, o kiwi, o queijo e a goiabada, enfim, o nosso sushi é um prato de origem japonesa, feito com peixe cru, que incorporou um traço brasileiro, enriquecendo-o e tornando-o um prato diferente do original japonês. Isto me enche de esperança de que possamos dar o nosso salto, copiando o modelo dos países desenvolvidos, mas colocando um tempero brasileiro, que tornaria nosso modelo educativo apropriado ao nosso clima tropical. Acho que as pessoas que lêem este blog acham um absurdo tudo isso que escrevo, um delírio de um sonhador utópico e que vive no mundo da fantasia, não no mundo real. Mas, se olharmos a história brasileira, vemos que nossa história, na verdade, se resume a menos de cem anos. Tirando alguns Estados litorâneos e cidades costeiras, o nosso interior era um deserto despovoado, até o início do século XX. As estradas paulistas foram iniciadas em 1930 e a industrialização para valer na Grande São Paulo, começou na década de sessenta. As principais cidades do nosso Estado, bem como o Estado do Paraná, Mato Grosso, Rondônia, têm menos de setenta, cinqüenta anos. Somos um país muito jovem, que estamos nos fazendo, criando uma cultura própria aos poucos, misturando traços raciais e culturais de diversas origens. Com isso, quando reclamamos que somos um país atrasado, temos que nos lembrar que as Universidades do Chile, do Peru e da Argentina, têm centenas de anos, enquanto nossa escola mais antiga foi fundada por Dom João VI, em 1808. Há cem anos, Buenos Aires era uma cidade cosmopolita, com todos os traços de uma cidade européia, cuja riqueza oriunda da exportação da carne, gerava uma sociedade culta, rica, que apreciava óperas, dança clássica, teatro, cafés, e livrarias cheias, enquanto São Paulo, tinha menos de 60 mil habitantes. O Rio de Janeiro, há 200 anos, quando da sua independência de Portugal, contava com menos de 300 mil habitantes. Portanto, se olharmos para trás, vemos que na verdade, nós avançamos demais, em tão pouco tempo. Por isso, quando reclamamos de tudo, de nossa saúde pública, da Educação, da segurança pública, temos que avaliar com uma lente menos pessimista e mais realista. O nosso sistema de saúde pública, o SUS, tem 20 anos desde a sua implantação. Em virtude de tudo isso, acho que devemos manter as esperanças de dias melhores, apostando nos bons, naqueles que trabalham com o coração, que se dedicam de corpo e alma àquilo que fazem. Devemos, sabendo de tudo isso, manter nosso olhar crítico, mas ao mesmo tempo, esperançoso, de que dias melhores podem pintar no nosso futuro, desde que nós façamos nossa parte e lutemos para que isso se torne realidade. O Brasil sempre foi tido pelos estudiosos de Economia como o país do futuro, que um dia tornar-se-ia uma grande potência econômica no mundo. Pois bem, o futuro chegou. Precisamos correr para não perdermos o bonde da história.
publicado por drtakeshimatsubara às 04:11 | comentar | ver comentários (2)
15
Fev 11

EDUCAÇÃO

EDUCAÇÃO Recentemente, ao participar de discussões do blog do Valfrido Silva, www.valfridosilva.com, deparei-me com uma situação inusitada. Uma das comentaristas pede ao moderador que bloqueie as postagens de pessoas que escrevem com muitos erros de caligrafia e gramática. Ela própria, porém, cometeu alguns crimes contra a nossa língua pátria e isso gerou uma série de discussões acaloradas, com alguns defendendo a liberdade de expressão e o respeito pelas pessoas que têm dificuldade em se expressar, e outros descendo o “cacete” nos ditos analfabetos e em seus defensores. Eu fiz um comentário, criticando a forma preconceituosa como a comentarista havia se comportado, ao desrespeitar as limitações de uma pessoa que tinha uma formação insuficiente em português, não sei se por falta de anos de estudo ou falta de interesse ou mesmo por problema de algum distúrbio neurológico, sei lá... Porém, o fato gerou uma série de comentários, alguns a favor de minhas colocações, outro criticando o fato de eu, um médico, estar defendendo o analfabetismo. Uma das comentaristas, inclusive, imputou à classe médica o erro de se injetar vaselina numa paciente em São Paulo, o que ocasionara a sua morte, porque segundo ela, médico não sabe ler... Sabemos que o português é uma língua complexa, com inúmeras conjugações verbais, com uma gramática complicada e cheia de regras, com grafias diferentes para palavras que têm o mesmo som, mas sentidos totalmente diferentes, dependendo de uma diferença em uma ou outra consoante. Mesmo pessoas, ditas cultas, às vezes, cometem erros pueris de gramática ou de grafia. Parece-me que a única maneira de se aprender o português de uma maneira definitiva, é a leitura constante. Ao se ler centenas ou milhares de livros, acabamos inconscientemente, aprendendo a grafia correta das palavras, a concordância verbal, a colocação correta dos pronomes, etc. Porém, uma das grandes deficiências de nosso povo é justamente a falta de hábito da leitura. Ao se tentar obrigar os alunos a ler os livros de José de Alencar, Aluízio de Azevedo, Euclides da Cunha, Machado de Assis e outros, na verdade, na sua grande maioria, os professores acabam criando uma rejeição pela leitura, pois a grande verdade é que esses autores são um “saco”, livros que somos obrigados a valorizar por fazer parte da nossa literatura, mas que na verdade, são de difícil assimilação ou de uma grafia rebuscada e de difícil compreensão para os nossos jovens destes tempos modernos. A leitura tem que ser algo prazeroso, não uma obrigação. Precisamos incutir nas crianças, desde a mais tenra idade, a capacidade de se entrar no mundo imaginário, no reino da fantasia, que somente uma boa leitura nos proporciona. Em alguns países, como o Japão, as pessoas têm o hábito de carregar livros de bolso para onde quer que se vá. Nas praças, nos trens, nos ônibus, enfim, em qualquer tempo livre, os cidadãos estão lendo os seus livros. Isto cria uma cultura, onde as livrarias são em grande número, muito freqüentadas e as impressões de livros são feitos aos milhares, barateando o custo de cada exemplar. É claro que isto é fácil, num país onde 90% da população têm nível universitário e o analfabetismo é algo inexistente. O nosso grande desafio para este século é zerarmos o nosso índice de analfabetismo. As nossas escolas primárias têm que rever o seu modelo, pois temos muitas escolas onde o índice de analfabetismo funcional é imenso, ou seja, o aluno chega à quinta série, mas não consegue escrever um ditado, ou mesmo interpretar um texto. Teoricamente ele está alfabetizado, sabe escrever o “beabá”, mas não consegue entender o que escreveu ou leu. As escolas estaduais de nosso Estado cometeram um crime, ao criar o modelo seriado, onde os alunos, mesmo que cheio de deficiências, não podia ser reprovado e era empurrado para frente, sem saber ler, escrever ou fazer contas. Com isto, com o passar dos anos, aumenta assustadoramente o índice de evasão escolar, com turmas cada vez menores, conforme vai se aumentando os anos escolares. A Educação é o grande desafio deste país que almeja se tornar uma superpotência mundial neste século, com o crescimento de nossa economia com taxas próximas aos dois dígitos, extremamente aquecida, com oferta ampla de empregos, mas cujas colocações de melhor remuneração ficam às vezes sem serem preenchidas, por falta de candidatos qualificados. Dizem que para melhorar a nossa Educação é necessário aumentar o salário dos professores. Em minha humilde opinião, isso somente não vai melhorar a qualidade de nosso ensino. Acho que o primordial é a valorização do profissional do ensino, e isso não se resume em aumentar os seus rendimentos. Esta valorização se inicia pelos salários também, sem dúvida, pois hoje, os salários pagos pela jornada de 4 horas são irrisórios, assemelhando ao salário de profissionais sem nenhuma formação acadêmica. Porém, mais do que aumentar somente os salários, é preciso que toda a sociedade passe a enxergar o professor e o profissional da educação, como alguém que é fundamental para a formação de nossa sociedade e do nosso conceito de cidadania. Que respeitemos este profissional, e ensinemos os nossos filhos que eles têm que ser vistos como os mestres que complementarão a sua formação, da mesma forma que queremos que os nossos filhos nos respeitem como pais. Não podemos, enquanto pais, permitir que os nossos filhos respondam de maneira mal educada às colocações e cobranças dos professores. É inaceitável que o professor chegue ao final de sua carreira com a grande maioria delas frustrada, com quadros depressivos, “encostados no INSS” ou aposentados por invalidez, como têm ocorrido nos dias atuais. Eu que trabalho na Perícia médica do INSS, fico impressionado com o número de professores e professoras de meia idade, a grande maioria com síndrome de “Burn-out” ou depressão, com crises de fobia somente de pensar em enfrentar uma sala de aula, lotada de jovens malcriados, que conversam nas salas, que não respeitam seus pedidos de permanecerem quietos e que não ligam a mínima para aquilo que o professor está tentando ensinar. Quando a escola chama os pais para reclamar dos seus filhos, eles reagem com indiferença, dizendo que o problema não é deles pais, mas sim da escola... Ou então, dizem ser um absurdo o professor ou a escola querer suspender o seu filhinho querido, que na sua casa é uma criança exemplar e que a falha está no professor, que não sabe dar aulas e cativar a atenção dos seus alunos... Para início de conversa, teríamos que criar escolas para pais. Precisaríamos repensar este nosso modelo condescendente e permissivo, onde todos passam as mãos na cabeça de todos, onde o excesso de legislação, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, as Leis contra isso ou aquilo, a Lei que torna um crime dar umas palmadas nos filhos, enfim, precisamos rever todo esse lixo criado para amedrontar os pais e torná-los incapazes de educar seus filhos, diante do medo de ser repreendido pelo Conselho Tutelar por tentar uma medida educativa mais enérgica. Precisamos ensinar aos pais que não podemos permitir o espancamento, a agressividade gratuita, a violência sexual contra menores, enfim, não podemos permitir os crimes contra os menores. Porém, encher a cabeça dos pais de dúvidas sobre até onde ele pode ir para educar os seus filhos, tentar educar apenas com base em palavras, sem a autoridade necessária, está criando uma geração que manda nos pais, que fala mal deles, os ofende e os “bananas” ouvem aquilo com a maior naturalidade, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Todas as sociedades têm a sua fase de sístole e diástole, onde uma fase extremamente moralista e repressiva é seguida por uma geração liberal e permissiva. Precisamos aprender que o correto está no meio termo, ou seja, “nem tanto ao mar, nem tanto a terra”... O ponto de equilíbrio está em permitir aos pais educar os seus filhos sem medo, com liberdade, baseada em seus valores morais recebido dos avôs, da soma cultural daquela determinada comunidade, baseada no limite, no amor, na energia na dose certa, para incutir nas crianças o respeito pelos seus genitores e, conseqüentemente, pelos professores e outros membros da coletividade. Com esta mudança de paradigma, talvez possamos resgatar o respeito pela educação, a valorização do profissional da educação e, com isso, possamos almejar uma participação na comunidade dos países desenvolvidos, com força na economia, mas também na cultura, nas artes, na geração de conhecimentos, na conquista dos Prêmios Nobel, enfim, possamos imaginar um Brasil rico, culto e educado. Quem sabe esse dia chegue antes do que nós sonhamos?
publicado por drtakeshimatsubara às 14:02 | comentar | ver comentários (4)