PROFESSOR TSUGUIO WATANABE

TSUGUIO WATANABE Ao longo desta vida, tive a felicidade de ser adotado por diversos pais, que, ao lado do meu pai biológico, completaram a minha formação como pessoa e cidadão.

Até os meus quinze anos, tive em minha família a base da minha formação, com a minha mãe me ensinando os valores da ética, da moralidade, dos conceitos do certo e do errado. Meu pai, então, era uma figura que participava de forma um pouco mais distante deste meu processo formativo. Seu ensinamento se dava através do exemplo e de seus atos, que nós, seus filhos, aprendíamos na prática, não através de conceitos e palavras, pois era um homem pouco afeito à oratória, sendo mais de ouvir e fazer do que propriamente de falar. Mas mesmo assim, aprendi muito com meu pai.

Aos quinze anos, saí de casa, para estudar em São Paulo. Fui morar na Casa de Estudantes Harmonia, em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Esta instituição era mantida pela colônia japonesa, que tinha fundado a “Sociedade Amigo dos Estudantes de São Paulo”, entidade mantenedora da casa, através do auxílio de grandes empresas japonesas e nikkeis instalados na Grande São Paulo e que fornecia os recursos para o funcionamento daquela instituição, que em seu auge, chegou a abrigar mais de 200 estudantes, de ambos os sexos, principalmente universitários, das mais diferentes localidades do Brasil, (e alguns do exterior), que iam estudar na Grande São Paulo.

Após uma direção de mais de 25 anos do Professor Hideto Futatsugui, que fora o fundador daquela instituição, este, ao aposentar, cedeu lugar ao Professor Yuji Ogassawara, figura bondosa, mas sem autoridade para dirigir uma casa com mais de 200 estudantes, no esplendor dos hormônios à flor da pele. Com isso, uma série de problemas de ordem disciplinar começou a ocorrer, ultimando com sua demissão. Para substituir o Professor Ogassawara, foi chamado o Professor Tsuguio Watanabe, que havia vindo do Japão para se tornar professor de língua japonesa na região de Araçatuba, SP. Este se encaixou como uma luva no papel de diretor da Casa de Estudantes, pois possuía o carisma e a autoridade necessários para dirigir a instituição e, principalmente, ajudar a formação de jovens.

Eu me lembro que gostava muito de procurar o Professor Watanabe sempre que tinha um tempo disponível, entre as aulas na Faculdade de Medicina. Ele me contava sua história, pois havia nascido e estudado no Japão, quando resolveu tentar a sorte no Brasil. Ele contava que na época, tinha uma namorada, por quem estava apaixonado e de quem se despediu, pedindo para que o esperasse por dois anos, que juntaria dinheiro e iria buscá-la para se casarem e virem morar no Brasil. Porém, passados os dois anos, quando ele voltou ao Japão para buscá-la, ela já havia arranjado outro homem com quem se casara. Ele me contava que sua decepção fora muito grande, que havia se escondido no meio do mato para chorar copiosamente e, a partir daquele instante, perdera a confiança nas mulheres. Voltara ao Brasil, conhecera a Dona Elisabete e, quando resolveram se casar, ele contou sua história e sua decepção. Que ele não tinha nada absolutamente a oferecer para ela, em termos materiais. Que iriam começar absolutamente do zero. Ele contava que, cada talher, cada panela que compravam, tinha um sabor muito especial. Que haviam cozinhado em latas de banha de porco, pois não tinham panelas. Que construíram uma vida, a partir do nada e cada objeto tinha uma história, conjunta, participativa. Aliás, a Dona Elisabete era uma mulher maravilhosa, de muita fibra, corajosa, apaixonada pelo marido e pela vida e que foi a grande companheira por toda a vida, que dera a estabilidade, que freava o marido quando precisava e que dava força quando ele estava enfraquecido, enfim, uma pessoa fundamental na vida do Professor Watanabe e que contribuiu de forma decisiva para tornar o marido o grande homem que o foi.

Tiveram quatro filhos homens, e ele, como professor de japonês, tinha também um programa de rádio em Araçatuba. Ele dizia que gostava de formar pessoas, gostava de conversar com jovens, para torná-los adultos idealistas, que contribuíssem para tornar o mundo melhor.

O professor Watanabe tinha um carisma e uma liderança naturais, de tal maneira que, seja falando com pessoas humildes, ou com autoridades, ele magnetizava as pessoas e possuía uma ascendência enorme, sendo um grande formador de opinião. Pude participar de algumas reuniões dele com presidentes e diretores de bancos importantes, como o Banco de Tókio, o Banco America do Sul, enfim, empresas que tinham milhares de funcionários, mas que, ao conversar com o Professor, tinham um grande respeito por ele e ouviam atentamente as explanações que ele fazia.

Dizia que nós precisávamos criar escolas para formar mães. Que elas são a base da família, o principal elo dos membros de uma família e que, dependendo da qualidade e liderança dessas mães, teríamos famílias melhores e, por conseguinte, cidadãos melhores e uma sociedade melhor.

Citava o exemplo de grandes líderes, como Soichiro Honda, fundador da Honda, e do Sr. Shinji Nishimura, fundador da Jacto, em Pompéia, SP, aos quais, dentre muitos outros que ele citava, atribuía uma grande liderança e principalmente a capacidade de contribuir para tornar o mundo um lugar melhor. Dizia que essas pessoas não tinham apenas fundado empresas para construir máquinas, mas que o fundo filosófico dessas pessoas, tinha contribuído para tornar o mundo um lugar melhor para se viver e que suas empresas não eram apenas para gerar lucros, mas sim para contribuir para a melhoria da vida das pessoas.

O professor Watanabe dizia que as pessoas, ao passar pela vida, precisam deixar rastros. Que a vida não pode se resumir em ganhar dinheiro. Aliás, ele dizia que o dinheiro não era importante para a felicidade das pessoas. Que nós, seres humanos, temos que influenciar positivamente os outros, para que possamos deixar uma palavra, um pensamento ou uma idéia, nem que seja em apenas uma única pessoa no mundo, para que isto seja uma semente para contribuir para um mundo melhor. Que, ao terminarmos nossa jornada na terra, ao olharmos para trás, possamos ver que deixamos nossa marca por onde passamos, seja pela palavra, pelo amor ou por nossas obras.

Eu tive a honra de tê-lo como padrinho do meu casamento com a Silvia. Ele sempre me estimulava a liderar as pessoas. Dizia que eu tinha uma liderança nata, que deveria utilizar para o bem comum, nunca para proveito pessoal ou material. Ele dizia que em nossa vida, devemos lutar para defendermos e tornarmos os sonhos realidade.

Ele era uma pessoa incrível, aberto às novidades e que tinha a capacidade de perceber e lutar pelas utopias por mais irreal que ela parecesse às pessoas comuns.

Foi, sem dúvida, uma das pessoas chaves na minha formação, num momento crítico do meu final de adolescência e início da maturidade, pois conviver e aprender com ele, permitiu que eu me tornasse uma pessoa melhor, mais idealista, mais sonhador e também, mais humano. Era uma pessoa que defendia o humanismo, como filosofia de vida. Para ele, o ser humano tem que amar o outro ser humano, independente de sua condição social. Dizia que a riqueza material é algo passageiro e ilusório, que podemos ter muito dinheiro um dia, para no outro, perder tudo, num negócio arriscado, numa mudança repentina da economia ou por uma guerra. Mas que aquilo que carregamos dentro de nós, o conhecimento, os valores éticos e morais, os princípios que norteiam os bons e grandes homens, estes não nos podem ser retirados, haja o que houver. Por isso, ele sempre pedia para avaliarmos o ser humano por sua riqueza espiritual, nunca pelo material. Dizia que os grandes seres da humanidade, como Jesus, Gandhi, Buda e tantos outros, eram totalmente desprovidos do material, mas de uma enormidade do ponto de vista espiritual.

Acredito que ele foi fundamental até mesmo na minha profissão médica, pois graças aos seus ensinamentos, pude me tornar mais humano, menos preocupado com o dinheiro. Ao longo da vida, pude perceber o quanto seus ensinamentos eram corretos, pois realmente, o dinheiro é uma conseqüência do nosso labor, vindo para nós na medida das nossas necessidades e do nosso merecimento. Não é preciso brigar por ele, que Deus nos manda o pão, na medida da nossa fome. Atender sem distinção o rico e o pobre, a autoridade e o trabalhador mais simples, a madame e a empregada doméstica, isso tudo, só foi possível, baseado em seus ensinamentos.

Com ele, pude aprender também um pouco da cultura e da história do Japão. Ele dizia que aquele país, devia muito de sua cultura, religião e costumes à China. Que o que diferenciava o japonês e os orientais em geral, do europeu, era que o primeiro, era um povo essencialmente agrícola, que ao longo dos milhares de ano, as tradições da família estavam ligadas àquele determinado pedaço de terra, que era cultivado e cuidado com todo carinho, para permitir às gerações seguintes, continuar o ciclo. Enquanto isso, os europeus e os fundadores da cultura judaico-cristã, eram baseados no pastoreio de ovelhas. Estes conduziam seus rebanhos onde tinham pastos, sem uma ligação direta com a terra, mas sim com os animais, que eram a sua riqueza maior. Este ponto, dizia ele, fazia toda a diferença no modo como ocidentais e orientais lidam com a tradição, com os valores morais e religiosos, principalmente o culto aos antepassados que é a base das religiões budistas e xintoístas, que caracterizam os japoneses.

Ele me contava que um indivíduo, ao agir com dolo ou má-fé, manchava o nome da família, que ficava maculado para sempre. Por isso, todos tinham o cuidado máximo de agir de modo que não sujasse o bom nome daquela determinada família daquela vila ou daquele bairro.

Com ele, pude aprender também a existência de uma mancha no passado do Japão, pouco conhecido do mundo ocidental. Por volta do século XVI, após uma guerra com a Coréia, o Japão levou para seu país um grupo de escravos e prisioneiros que haviam sido derrotados. Estes, formaram bairros onde eram segregados, chamados “Burakumin”, ou “Etas” ou “Quatro dedos”. Como a religião budista é reencarnacionista e diz que os animais têm espíritos, o ato de se matar um animal para comer sua carne, ou manusear seu couro, era considerado uma atividade menos nobre. Como esses burakumin não tinham alternativa, especializaram-se nessas atividades que os japoneses não gostavam de fazer. Hoje, passados mais de quinhentos anos desde a sua origem, esses indivíduos continuam sendo discriminados, pois no Japão é costume se estudar a genealogia, quando de casamentos ou de procura de empregos. Com isso, o casamento com um membro dessa comunidade é uma verdadeira tragédia para a família, sendo proibido e com isso, perpetuando essa prática discriminatória e totalmente sem sentidos para nós, ocidentais.

Outra mancha no passado japonês foi o período que culminou na Segunda Guerra Mundial. Ele dizia que o Japão, por ser uma ilha, era um país que nunca, ao longo de sua história, havia perdido uma guerra. Para a unificação dos feudos, houve uma guerra civil, em que clãs e famílias guerrearam entre si, para que no final, a família Tokugawa assumisse o poder e permitisse a pacificação do Japão, o qual durou mais de 300 anos (de 1500 a 1800, aproximadamente). Neste período, o Japão havia se fechado em si mesmo, não permitindo o acesso de seus portos por navios estrangeiros. Esse isolamento criou um espírito segregacionista e um sentimento de superioridade nos japoneses. No século XIX, quando ocorreu a revolução Meiji, por volta de 1870, de repente o Japão quis tirar o atraso de séculos em poucos anos. Contratou, a peso de ouro, professores e mestres nas diversas especialidades dos países europeus, para criar do nada uma infra estrutura industrial e científica que ele não possuía. Isto tudo está muito bem retratado no filme “O Último Samurai”, com Tom Cruise, onde é mostrado o conflito entre os desenvolvimentistas e os tradicionalistas, sendo que os primeiros saíram vencedores.

A medicina japonesa, por exemplo, foi toda baseada em professores vindos da Alemanha. Até recentemente, as receitas médicas no Japão eram escritas em alemão, sendo que as aulas na faculdade de medicina eram dadas em alemão e os livros médicos e as técnicas adotadas eram todas oriundas daquele país europeu.

O fato é que, em poucos anos, o Japão, de um país essencialmente agrícola e sem nenhuma tradição industrial, transformou-se numa grande potência regional, com somas vultosas sendo despendidas com suas Forças Armadas. Estes soldados, baseados no espírito de superioridade e nacionalismo que era incutido em todos, tornou-se um guerreiro sanguinário e destemido, que causou uma série de ações violentas contra o inimigo, desrespeitando os mais elementares princípios de civilidade, matando civis desarmados, estuprando e violentando mulheres e trucidando os soldados inimigos. Com isto, gerou um espírito de belicosidade e revolta nos países que eram subjugados, principalmente nos chineses e coreanos, que, até os dias de hoje, têm um sentimento de revolta e raiva dos japoneses.

O fato é que ter adquirido esses conhecimentos com o Professor Watanabe me ajudou muito, num momento em que eu vivia num grande conflito interior, devido à minha origem de filho de japoneses morando no Brasil. Isto tudo me ajudou a perceber que é uma grande vantagem poder entender as origens e a cultura que trouxe com meu código genético, mas que, ao mesmo tempo, sou um brasileiro, pois não compactuo e não consigo aceitar as muitas falhas e pontos negativos que esta mesma cultura japonesa carrega no seu bojo, mas que é escondido de todos, para se resumir no falso sentimento de superioridade que caracteriza aquele povo. Conhecer estes lados, fez com que eu assumisse uma identidade própria, que ajuda a enriquecer e a formar uma cultura brasileira, trazendo para esta, conhecimentos, valores morais e espirituais, de tal modo que daqui a algum tempo, tenhamos uma cultura genuinamente brasileira, a soma da diversidade cultural e racial, que traz um pouco das qualidades de cada componente. Poder ser uma peça deste mosaico, ajudar a formar este sentimento de brasilidade, de formador de um país que será, sem dúvida, o grande líder deste século, com uma liderança exercida de maneira humana, fraterna e amorosa para com toda a humanidade. Esta, sem dúvida, foi a grande contribuição que esse espírito de estirpe superior, com quem eu tive a honra e a oportunidade de muito aprender, me ajudou tanto a compreender esses conflitos e permitir que eu pudesse ser um cidadão brasileiro e uma pessoa melhor.

Obrigado, Professor Watanabe. A doença o levou muito cedo, mas temos a certeza de que sua missão foi coroada de pleno êxito e que o senhor deixou marcas profundas nos corações dos seus discípulos e filhos adotivos, como eu.

 

Takeshi Matsubara, médico, morador da Casa de Estudantes Harmonia de 1978 a 1986.

publicado por drtakeshimatsubara às 14:22 | comentar | favorito