MOTOCICLETA

MOTOCICLETA

 

Quando eu era estudante de medicina, na década de oitenta,
meu sonho de consumo era poder comprar uma motocicleta, pois tinha que andar a
pé, de ônibus, trem e metrô, para todo lado, perdendo um tempo precioso
naqueles meios de transporte sempre lotados, sujos, com longas esperas nas
filas nos pontos de ônibus ou estações, à espera de uma condução que estava
quase sempre atrasado. Diante das minhas constantes queixas, minha família
tinha concordado em me deixar comprar uma motocicleta de 125 cc que era meu
sonho. Porém, quando eu já tinha oficializado o pedido,  na loja Fórmula G, próximo à estação de trem
de Santo Andre, SP, veio a ducha fria e a proibição de comprar minha motoca.

Eu me lembro de ter chorado de raiva e frustração diante da
negativa da minha família. Fiquei longo tempo sonhando com o dia em que
compraria a minha tão sonhada e desejada motocicleta. Mudei-me para Dourados,
comecei a trabalhar como médico,  casei,
tive filhos e o sonho foi ficando para um segundo plano, pois as responsabilidades
eram muitas. Imagine só comprar uma moto, sofrer um acidente, ficar aleijado ou
morrer, deixando o ônus da criação dos meus filhos para uma pobre viúva? Que
irresponsabilidade é essa? Fui tocando a vida, assumi diversos cargos, entrei
para a política, como secretario municipal de saúde de Dourados.  Sofri um massacre total da imprensa e dos
meios de comunicação, por tentar enfrentar grupos poderosos que haviam se
apoderado do sistema de saúde e faziam todo tipo de negociata, para
enriquecimento ilícito. Sofri um infarto do miocárdio, aos 40 anos de idade.
Isto me permitiu refletir sobre a minha vida até então. Será que valeria a pena
viver correndo atrás de sonhos, adiando a realização dos mesmos, em nome de uma
responsabilidade familiar? Esperar a aposentadoria, para aí então colocar em
prática os objetivos sonhados por um longo tempo, como comprar uma moto, um motor
home, viajar pelo mundo? Esperar ficar velho, com reumatismo, dores na coluna?
E aí, será que eu poderia curtir a vida após ter os filhos criados? E se morrer
antes, levarei para o túmulo esses sonhos longamente acalentados? Enfim após
essas reflexões, tirei minha carteira para dirigir motos, após levar pau por 4
vezes.  Comprei enfim a minha tão sonhada
Harley Davidson.

Andar de moto é algo que não dá para definir com palavras. É
uma loucura você imaginar, nos dias de hoje, em que os automóveis vêm com ar
condicionado, direção hidráulica, bancos de couro, câmbio automático e outras
comodidades, você andar num veículo de duas rodas, cuja lógica é você cair,
pois o equilíbrio é sempre instável. Nos dias de calor, você toma aquele bafo
quente que sobe do asfalto fervente, que  te cozinha, com aquelas roupas de couro preto.
Nos dias de chuva, você toma água por todo lado, mesmo com a capa de chuva mais
moderna, aquelas gotículas teimam em penetrar pelas frestas das costuras,
molhando você da cabeça aos pés. No frio, por mais agasalhado que você esteja,
com segunda pele, com luvas, boina e o diabo, tem sempre aquele buraquinho por
onde penetra aquele ventinho gelado, que congela até sua alma.  Enfim, é uma coisa de louco tudo isso, pois
com tudo isso, em cima de uma moto, tem um sujeito que está sorrindo, de orelha
a orelha, cheirando a fumaça dos caminhões, levando fechada dos automóveis,
sendo jogado para o acostamento nas ultrapassagens indevidas de caminhões e
automóveis, que sempre consideram que a motocicleta não faz parte do trânsito e
sua presença é sempre indesejável. Dá para entender?

Claro que não faz parte do arrazoado das pessoas comuns entenderem
todas estas contradições. Só mesmo sendo masoquista, para achar legar passar
por todo este desconforto e curtir a viagem.

Quando vejo um motociclista em sua moto de trilhas, cheio de
barro, poeira, com suas roupas imundas, com as botas todas enlameadas, onde a
única parte menos suja é ao redor do olho, por causa dos óculos de proteção, aí
até eu acho demais. Mas tem uma infinidade de pessoas cujo lazer é pegar uma
trilha com os amigos, no final de semana, andar pelo meio do mato, sofrendo quedas
e mais quedas, cruzando riachos, subindo morros e fazendo mil outras estripulias.

Enfim, a explicação que encontrei para tudo isso é que o
motociclista é a reencarnação moderna do cavaleiro e andar de moto é
transportar para os dias de hoje, as longas viagens a cavalo, em cima de uma
sela, cruzando este mundão de meu Deus sem rumo e sem destino.  A sensação de liberdade, do vento na cara,
somente andando de moto é possível de ser reeditada. Por isto, mais e mais
pessoas compram suas motocicletas, aos milhões. Alguns compram pela comodidade
de enfrentar o trânsito das grandes metrópoles, onde somente sobre duas rodas,
é possível tentar fugir dos congestionamentos monstros, que tomam várias horas
por dia dos cidadãos em seus automóveis. Outros compram por puro lazer, dentre
os quais me incluo, e andam com suas motos, nos finais de semana, nos passeios
com os membros de moto clubes em longas viagens pela estrada afora.

Andar de moto é perigoso? Com certeza é muito perigoso. Na
grande São Paulo, um motociclista  morre
todos os dias. Dezenas, centenas e milhares lotam os hospitais de urgência e
emergência, com fraturas, traumatismos e múltiplas seqüelas dos acidentes, que
quando não são fatais, deixam o cidadão inválido ou sem poder trabalhar por um
longo tempo.

Ao se fazer um estudo estatístico, vemos que a grande
maioria deles são motociclistas jovens, dos 18 aos 29 anos de idade, com pouco
tempo de habilitação e que há pouco puderam adquirir sua moto. E por que isso
ocorre? Na grande maioria das vezes, os jovens são imprudentes, sentem-se
invulneráveis, imortais e que por mais que arrisquem, nunca irão sofrer um
acidente. Invariavelmente, eles acabam se envolvendo em algum incidente  que pode ser grave a ponto de deixar seqüela
ou mesmo tirar sua vida.

Outro problema que contribui para tantos acidentes  nesta faixa etária é a total irracionalidade
que é o sistema de formação das nossas moto-escola que não ensinam
absolutamente nada sobre as técnicas de pilotagem sobre duas rodas, suas
peculiaridades, seus riscos, e idiossincrasias. Quando se vai tirar carta de
moto, você perfaz um percurso de algumas dezenas de metros, que consiste de um
traçado que consiste de alguns oito, uma volta, uma reta, enfim, você ter que
completar um percurso numa pista sem colocar os pés no chão. E pronto. Se você
completou esse percurso, você está autorizado a comprar uma superesportiva de
mais de mil cilindradas, com 200 cavalos de potência e que corre a mais de 300
km/h. Basta ter dinheiro para comprá-la.

Portanto, é urgente que o poder público e a sociedade
rediscutam esse modelo de formação do motociclista, aumentando o número de
aulas teóricas, sobre legislação de trânsito, mudando o sistema da Avaliação
prática, para percursos no trânsito real, como os automóveis. Além disso, é
necessário revisar a classificação da habilitação, limitando a cilindrada
permitida, conforme os anos de experiência com a motocicleta. Por exemplo, no
primeiro ano, apenas motocicletas até 125 cc de cilindrada. Depois, 250 cc no
segundo ano, 500 cc no terceiro ano, etc., para que o acesso às motos
esportivas, de 200 HP, fosse o último degrau, após ter adquirido nas
cilindradas menores.

Talvez assim, tenhamos uma melhora da imagem da motocicleta,
junto ao público geral, de um instrumento assassino, uma máquina de moer gente,
para um meio de transporte, prático, ágil, inteligente e, se Deus quiser, seguro.

Para isso, temos muito que caminhar, pois hoje, o acidente
com motocicleta se tornou uma verdadeira epidemia, um grave problema de saúde
pública, a onerar nosso pobre sistema de saúde, tirando recursos do atendimento
preventivo e do sistema previdenciário, causando um verdadeiro caos nos Prontos
Socorros e nas enfermarias de Traumatizados.

publicado por drtakeshimatsubara às 14:28 | comentar | favorito