SHINDO RENMEI

SHINDO RENMEI

 

Uma das páginas obscuras na história da imigração japonesa
no Brasil, e que por muito tempo foi um tabu, cujas lembranças causavam dor e
sofrimento para os membros mais idosos da coletividade nikkey, foi a Shindo
Renmei, associação fundada na década de 40 em São Paulo, por um imigrante que
havia sido coronel do Exército imperial, Sr. Junji Kikawa.

Quando se fala de uma organização que foi tida como
terrorista pelo governo brasileiro, imagina-se uma associação de loucos e
fanáticos. Mas, na verdade, ela foi fruto de uma época, a era Vargas, que com
seu ideal fascista, contribuiu para a criação de um espírito xenófobo e, de
maneira semelhante aos nazistas alemães, desejavam um país branco, eugênica,
onde o povo brasileiro deveria passar por um processo de “branqueamento”, com a
abertura da imigração para os europeus e o fechamento das fronteiras para os
japoneses. Ao iniciar a Segunda Guerra Mundial, com o Brasil se unindo aos
países aliados (Estados Unidos, Inglaterra, França e outros) e declarando
guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), os descendentes destes
países passaram por um processo de perseguição, sendo considerados inimigos da
pátria e possíveis espiões a serviço do inimigo. Com isso, os clubes e associações
fundadas pelos imigrantes japoneses, bem como hospitais, jornais impressos em
língua japonesa, programas de rádio e até mesmo aparelhos de rádio de ondas
curtas, que pudessem captar os programas do Japão, foram lacrados ou
nacionalizados, sendo impedido o seu uso. O simples fato de falar em japonês
era considerado crime, bem como a reunião de mais de duas pessoas japonesas era
considerado conspiração e passível de prisão. Neste clima, onde a comunidade de
japoneses (em torno de 200 mil japoneses e descendentes na época), a grande
maioria deles moradores em fazendas no interior de São Paulo, a grande maioria
analfabeta em língua portuguesa, e que mal sabia falar o português, todas as
fontes de informação foram impedidas, criando uma comunidade que recebia as
notícias do Japão e do mundo através de boatos.

A era anterior à segunda guerra mundial, no Japão, foi
dominada pelos militares e o seu espírito beligerante, chamado Yamato damashi (
espírito japonês puro) havia impregnado a todos os japoneses. Ao longo de 2600
anos de história, o Japão nunca havia conhecido a derrota nas mais diversas
guerras em que havia se envolvido, contra os chineses, coreanos, russos e
outros inimigos. O Império Japonês, no início da década de 40, havia adquirido
vasta extensão territorial, através das armas, tendo anexado a Mandchúria
(região leste da China), as Filipinas, Indonésia, Coréia, e várias ilhas da
Oceania. A vitória imposta aos americanos, no início da guerra, era
propagandeada pelos jornais impressos, pelo cinema e pelo rádio. Portanto, para
os japoneses aqui radicados, era impossível que o Japão perdesse a guerra, e a
falta de informações corretas fez com que mais de 80% dos imigrantes não
acreditassem que o Japão havia sido bombardeado com duas bombas atômicas em
Hiroshima e Nagasaki  e que o imperador
Hirohito tivesse feito um pronunciamento pelo rádio, (pois até então, o
imperador era tido como uma divindade e sua voz não podia ser ouvida pelos
simples mortais), aceitando as condições americanas para uma rendição, em 15 de
agosto de 1945.

Tais fatos e o ambiente reinante na época, fez surgir
diversas organizações secretas no seio da colônia, para preservar o espírito
guerreiro japonês. Dentre estes a Shindo Renmei, (Liga do Caminho dos Súditos,
em tradução literal) foi a que mais prosperou, recebendo doações de milhares de
imigrantes. Fundada pelo Sr Kikawa, ex-coronel do Exército Imperial Japonês que
havia imigrado para o Brasil, com sede na Rua Paracatu 96, no Bairro do
Jabaquara, São Paulo, esta associação prosperou no interior de São Paulo,
principalmente nas cidades de Marília (12 mil associados), Pompéia (dez mil
associados) , Tupã (oito mil e quinhentos associados), Mirandópolis, etc..

Naquela época, a colônia japonesa estava dividida entre os
chamados “katigumi” (grupo dos vencedores) e os “makegumi” (grupo dos
perdedores). Na verdade, eram uma divisão entre os isseis, imigrantes oriundos
do Japão e que não falavam o português, e os nisseis, nascidos no Brasil e que
já dominavam a língua portuguesa, tendo acesso às notícias e informações que
eram todas veiculadas pelos jornais e rádios em língua portuguesa. Ao tentar
convencer a comunidade japonesa que as notícias do mundo todo informavam que a
guerra havia acabado e que o Japão havia se rendido, tais pessoas se tornavam
inimigos dos membros da Shindo Renmei. De início, recebiam ameaças e insultos.
Depois, os membros organizados em pelotões de cinco a sete membros, partiam
para atos de terrorismo e o assassinato.

Em 7 de março de 1946, Ikuta Mizobe, diretor da Cooperativa Agrícola
de Bastos, SP, foi a primeira vítima de assassinato, cometido pelo braço armado
da organização, chamado Tokkotai, soldados que se vestiam de amarelo, usavam
facas e espadas para assassinar àqueles que divulgavam em público que o Japão
havia perdido a guerra.

Desta mesma maneira, de 1946 a 1947,  24 pessoas foram assassinadas pelos jovens
membros da organização e mais de 147 pessoas foram feridas pelos mesmos. O
DEOPS, Departamento de Ordem Política e Social, desmantelou a organização,
prendendo mais de 600 membros e simpatizantes da organização e condenando-os à
prisão ou extradição para o Japão, fato que nunca chegou a ocorrer.

Portanto, à uma avaliação superficial, parecia tratar-se de
um grupo de fanáticos que assassinavam pessoas inocentes. Na verdade, era o
resultado de uma época de excessos de ambos os lados, onde a desconfiança e a
discriminação por parte dos brasileiros, aliado a um espírito militarista,
associado ao desconhecimento da língua portuguesa por outro, permitiu a criação
de uma organização que causou muito medo e ate hoje, é motivo de vergonha para
os imigrantes japoneses no Brasil.

Hoje, quando se fala que os brasileiros estão integrados à
coletividade brasileira, tal fato de início foi um processo doloroso, eivado de
preconceito e desconfiança de ambos os lados. É um fato que foi estudado por
Fernando de Morais, no livro “Corações Sujos” e principalmente por Rogério
Dezem, historiador e pesquisador da historia da imigração japonesa, e cujos
dados forneceram material para o texto acima.

Estudar o tema e exorcizar o passado é um processo
necessário, para que tais fatos sejam devidamente estudados e conhecidos por
todos, para que tais ocorrências não se repitam no futuro. E a história da imigração
japonesa no Brasil, apesar de seus percalços, pode ser considerada vitoriosa,
com os seus membros hoje completamente integrados à sociedade brasileira.

publicado por drtakeshimatsubara às 20:26 | comentar | favorito