60 ANOS DE IMIGRAÇÃO

60 ANOS DE IMIGRAÇAO

 

A nossa família, Matsubara é originária de uma cidade, chamada Yatsushiro, na Província de Kumamoto Ken, no Sul do Japão.

O nosso pai, Takasuke Matsubara, era o segundo filho da família. A minha mãe, Take, era a segunda filha da família Nishida, que residia próximo, também na província de Kumamoto.

Quando os nossos avós maternos resolveram imigrar para o Brasil, nos idos da década de 30 do século passado, a minha mãe, foi acometida de uma doença, tracoma, que era uma doença infecciosa que acometia principalmente os olhos, dando uma conjuntivite grave, que era contagiosa e, portanto, impediu-a de embarcar no navio com a sua família. Ela foi deixada então aos cuidados dos seus tios, e sofreu bastante, tendo que trabalhar de sol a sol, para poder fazer jus à sua ração diária. Ela contava que sua vida foi trabalhar na lavoura de arroz e de uma espécie de juta, que era usada para fazer tatames e tapetes.

Quando ela conheceu meu pai, através de Omiai, (casamento arranjado) foi quase que uma libertação para a nossa mãe. Sempre que ela falava dessa fase de solteira, ela chorava muito e lembrava com tristeza pelo fato de ter que ser praticamente abandonada sozinha, numa casa de parentes, sem o carinho dos pais e sem poder ver o crescimento dos irmãos.

Depois de casados, eles se mudaram para a Manchúria, na China, onde toda a família de meus avós paternos imigrara, tendo recebido terras e ajuda do governo para cultivar diversos alimentos, que eram usados pelos soldados japoneses que haviam dominado e colonizado aquele pedaço da China. A minha mãe dizia que a convivência com os chineses não era muito fácil, pois eles eram os invasores, que haviam tomado uma parte do país, impondo seus costumes e cultura à base da força, do poderio militar. Ela contava que, quando os soldados soviéticos invadiram a Mandchúria, quase no final da II Guerra Mundial, houve um verdadeiro massacre dos japoneses, que eram assassinados à sangue frio, mesmo estando desarmados. O meu pai, Takasuke, era um homem muito calado, e que tinha um verdadeiro trauma que bloqueava totalmente quando o assunto era este período.  A rede de televisão japonesa NHK fez uma novela falando de uma história muito semelhante à vivida pela nossa família, e o meu pai não quis assistir de jeito nenhum. Acredito que aquilo rememorava lembranças muito dolorosas, que ele tentou a vida toda esquecer.

A retirada após o término da guerra foi outro episódio muito doloroso, pois nossa irmã, a segunda filha do casal, acabou morrendo de pneumonia, pois a viagem fora feita num trem cargueiro, em vagões usados no transporte de gado, sem cobertura, sem nenhuma proteção contra a chuva e a neve, causando muitas mortes de velhos e crianças, enfraquecidas e desnutridas. Os mortos não tinham direito a um enterro digno, sendo enterradas em valas quando das paradas do trem ou mesmo jogadas ao longo dos trilhos, quando entravam em decomposição.

Voltando ao Japão, retomaram as atividades na agricultura. Como o costume rezava que o irmão mais velho cuidava da terra e dos idosos, eles assumiram o comando, pois nosso tio, irmão mais velho de meu pai, fora dado como desaparecido de guerra. Após quase 8 anos, ele, que fora levado como prisioneiro de guerra dos russos para trabalhos forçados na Sibéria, foi solto, através de um acordo entre os governos e voltou para casa, reassumindo o posto. A nossa família, não teve alternativa que não imigrar para o Brasil. Como a família contava então com o meu pai, nossa mãe e 3 filhas mulheres, foi preciso que nosso tio, Motonobu, viesse junto, pois era preciso mão de obra do sexo masculino. Embarcaram em Kobe num navio que aportou após quase 40 dias, no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1953, onde ficaram em quarentena numa ilha. Posteriormente, foram levados num vapor para Ilhéus e finalmente Una, cidade da Bahia onde deveriam trabalhar numa fazenda de cacau. Como minha mãe estava gestante do tio Ryuiti, foram aconselhados a ir para o Sul, pois as condições de saúde naquela região eram muito precárias. Foram para o Paraná, em Santana do Itararé, onde residiam os avós maternos;  meus pais e a tia Takako viajaram,  enquanto o tio Motonobu ficou com a tia Keiko e a tia Naoko. Após o nascimento do Ryuiti, em 20 de dezembro de 1953, meu pai voltou para a Bahia, para buscar o restante da família e foram todos para o Paraná, onde começaram a vida na agricultura, recebendo ajuda do nosso avô Nishida e dos tios maternos. Moraram quase 10 anos numa casa cuja parede era de barro, chamado “pau a pique”, onde havia uma infestação de barbeiros, ou chupança, que transmitiu doença de Chagas para quase toda a família.

Trabalharam duro, até conseguir comprar um sítio pequeno, onde construíram uma casa de tábuas, que era uma das mais bonitas da região quando inaugurada, uma verdadeira mansão, diante daquela casa de barro. Lembro-me das irmãs, trajando chapéu, roupas e lenços feitas de sacos de algodão, que protegiam os braços, e o rosto contra o Sol inclemente, nas plantações de tomate, passando venenos com bombas manuais,  colocados nas costas. Lembro-me do Ryuiti, ainda menino, dirigindo trator, assumindo o pesado cargo de irmão mais velho, trabalhando todos na lavoura, enquanto nós, os filhos mais novos, éramos poupados das agruras do trabalho duro. Construíram granjas para criação de galinhas e produção de ovos e até hoje me lembro de que o quintal era enorme, tinha um pomar com várias árvores frutíferas, como  pés de abacate, laranja, maça, pêssego e o mais gostoso, que eram de nozes pekan, que eu adorava catar e comer.

Me lembro que a escola rural ficava na terra dos Narita, que distava 2 km de nossa casa. Nesta escola, uma vez por mês, vinha uma Kombi, com projetor de filmes, onde eram projetados dois filmes japoneses, e toda a família assistia os mesmos, sentados em bancos de tábua e nós, crianças, assistíamos deitados em futons que forravam o chão. Eram filmes sobre samurais, yakuzas, romances, distribuídos pelo Cine Niterói, ou pela Toho ou cine Jóia de São Paulo.

Havia também um campo de beisebol, onde se disputavam campeonatos regionais. Havia anualmente o undokai e  o Kaikan, que ficava na cidade de Santana do Itararé, onde se reuniam os jovens da região.

Naquela época, havia um espírito de fraternidade, e as famílias que se encontravam em dificuldade financeira eram ajudadas por outras em melhores condições, com empréstimos sem juros, sem documentos, sem cartórios, baseados apenas no companheirismo e no fio do bigode.

O Ano Novo era uma data esperada ansiosamente por nós, crianças, pois era o grande momento do ano, onde se podia tomar  guaraná Antártica e se comer iguarias até se fartar. Os adultos bebiam cerveja. Quente, naturalmente. Havia o costume de se dirigir de casa em casa, visitando as famílias vizinhas para comemorar o início de uma nova era de prosperidade e plena saúde. E dê-lhe “gotissô”.

Com certeza, nesses 60 anos de imigração de nossa família, muitos costumes se perderam, muita coisa foi mudando ao longo do tempo, alguns valores foram ficando pelo caminho.

Mas temos a certeza de ter valido a pena, quando olhamos para trás e enxergamos que tantas coisas boas foram realizadas, tantas pessoas vieram e se foram, deixando cada uma a sua marca pessoal, compondo esse mosaico que forma um quadro histórico, repleto de bons momentos, de alegria e realizações.

Parabéns à todos por fazermos parte desta nossa história!

publicado por drtakeshimatsubara às 18:44 | comentar | favorito