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Mar 10
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O ADOLESCENTE E O GRUPO

O ADOLESCENTE E O GRUPO Após semanas sem inspiração para escrever, pedi `a minha esposa para que a mesma indicasse um assunto para escrever neste blog e a mesma sugeriu o tema acima. Quando crescemos e saímos da infância, passamos pela fase da adolescência. Ou aborrescência, segundo alguns. Pois bem, nesta fase, de muitas mudanças e de muita insegurança, há uma necessidade de auto-afirmação, e neste momento, o grupo se torna quase fundamental para que se atinja a aceitação e a auto-imagem que tornará seguro nosso adolescente. O grupo quase sempre tem um líder, que ditará as regras, seja de postura, de vestimenta, de valores, etc. Este líder ditará as regras a ser seguido pelo grupo. Aquele que cair em desgraça com o líder, será também “queimado” pelo restante do grupo. Nesta fase da vida, em que se desperta para a sexualidade, onde os hormônios a mil tornam os indivíduos passíveis de alguns excessos, começam a surgir os casais, alguns deles intra-grupal, outros inter-grupais. Eu sempre digo para os pais dos meus pacientes, que o adolescente é um ser que, ao deixar a infância, e as ilusões desta fase, começa a desmitificar os seus pais e os seus heróis. Ele começa a perceber que o pai não é aquele craque do futebol que ele imaginara, ou mesmo aquele galã de cinema, o bom mocinho, o rei que venceria a todos os concorrentes devido à sua força descomunal. Mas sim, que aquele pai-herói é na verdade um ser com limitações, com fraquezas, com defeitos. Eu chamo isso de fase iconoclasta, ou seja, é a fase em que a criança que cresceu, derruba os pais do pedestal em que os havia colocado e os joga ao chão, destruindo os seus ídolos de barro, ou seja, destrói os seus ícones. Quando termina a adolescência e este se torna um adulto, chega a fase da reconstrução, onde, “está certo, meu pai não é um herói, não é um craque de bola, nem o super-homem, mas é o meu pai, e, mesmo com suas limitações, eu o amo, gosto dele do jeito que é, pois ele é um sujeito boa praça, engraçado, batalhador e que me ama...” É a fase em que o adulto vai tentar consertar o seu ídolo de barro, colocar cola, tentar reconstruir seu herói, tornando-o uma figura humana. Lidar com adolescente é muito legal e desafiador. É uma especialidade das mais difíceis, dentre as sub-especialidades da pediatria, chamada Hebeatria. Lidar com adolescente é tentar orientar, encaminhar, prevenir, ensinar e, principalmente, ouvir. Ouvir seus anseios, seus medos suas inseguranças, que os mesmos tentam esconder a todo custo, pois não pega bem para os amigos mostrar fraqueza, sentimentos, etc. Por isso, é preciso trabalhar o individuo, isoladamente, fora do contexto do grupo, para que o mesmo mostre as suas reais individualidades e características pessoais. Trabalhar com adolescente é um desafio, pois em geral, são desconfiados, têm a sensação de que estão sendo vigiados, e conquistar sua confiança é um processo às vezes demorado. Mas uma vez conquistados, mostram uma faceta interessante e cheia de incongruências e contradições. Ao mesmo tempo em que eles se acham invulneráveis, poderosos, cheios de si, eles também são inseguros, sentem-se fracos, diminuídos. Nesta hora, quando em turma, eles gostam de pegar os carros dos pais, para dar um “rolê “ e as vezes acabam se excedendo, fazendo besteiras e sofrendo acidentes. Portanto, para lidar com o adolescente, precisamos estar atentos e deixar sempre um canal aberto de comunicação, para que os mesmos possam nos procurar, quando se sentirem vulneráveis ou quando tiverem algum problema, pois ao se demonstrar interesse por seus problemas, sem um viés crítico, eles se sentem confiantes para buscar um apoio e um ombro amigo.
publicado por drtakeshimatsubara às 21:02 | comentar | favorito
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Mar 10
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MÉDICO PERITO E MÉDICO DA FAMÍLIA

 

MÉDICO PERITO E MÉDICO DE FAMÍLIA
Em 2005, fui aprovado no concurso público para médico perito do INSS. A princípio, fiquei dividido, sem saber se assumia o cargo, pois na época, exercia o cargo de médico da família do PSF do Parque das Nações II, naquele que foi, sem dúvida, o emprego mais gratificante que havia exercido na minha vida. O médico de família é um profissional que consegue se o quiser, resgatar a verdadeira função de médico, pois permite o conhecimento da integralidade dos problemas de saúde daquela comunidade onde se insere. Conhecendo o paciente em sua casa, os problemas psicológicos vividos pelos membros da família, os problemas sociais, econômicos, e até mesmo os problemas de higiene daquela casa, o médico pode fazer um trabalho abrangente, com uma visão do todo, e de forma preventiva. Apoiado em programas do Ministério da Saúde, pode fazer um trabalho preventivo de doenças como diabetes, hipertensão, doenças sexualmente transmissíveis, AIDS, tuberculose, hanseníase, etc.
Ao trabalhar com a comunidade, cria-se um vínculo forte com os seus membros. Tomando cafezinho, comendo um bolo feito em sua homenagem, ou simplesmente, “proseando” com os moradores, o médico de família cria um vínculo de amizade e respeito mútuo, que premia o profissional com o pagamento que não tem preço, ou seja, a satisfação do trabalho valorizado e reconhecido.
A equipe de saúde da família, composta por médico, enfermeiro padrão, 2 auxiliares de enfermagem e 5 agentes de saúde, foi uma sacada genial, pois permite um trabalho abrangente e completo com uma comunidade. De maneira semelhante a que ocorre com a polícia comunitária, esta relação íntima com uma população fechada, permite a criação de vínculos profundos, que fazem com que a relação seja baseada na amizade e respeito mútuo, fazendo esta forma de trabalho, um manancial de satisfação e realização profissional para todos que compõem a equipe.
Pois foi tudo isso que eu tive que deixar para trás, para assumir um concurso público, no serviço federal, cheio de armadilhas, de perseguições, de uma sensação constante de se estar sendo vigiado, pelo Big Brother chamado Estado, com seus pontos eletrônicos, com seus sistemas de pontuação do trabalho, onde é preciso atingir um índice determinado de negativas, para ser premiado com um sistema injusto de gratificação. Uma instituição federal, chamada INSS, vinculado a um Ministério da Previdência, onde o médico perito não é mais o médico assistente, aquele que conversa com o doente para ajudar a minorar sua dor, mas sim, um fiscal, um bedel do sistema previdenciário, à caça constante dos fraudadores, dos indivíduos que tentam receber um benefício pecuniário, muitas vezes imerecido. Isto faz com que o médico perito do INSS seja um profissional odiado pela população, vítima de agressões, sendo que dois profissionais já foram mortos no país nos últimos anos.
Ao fazer uma perícia médica, não nos é permitido  criar um dos elos fundamentais da medicina, qual seja, a relação médico paciente, pois ela dificulta a avaliação isenta. Quando se faz uma pericia, esta base da medicina é deixada de lado, o que é difícil e nos frustra enquanto médico assistente que havíamos sido a vida toda.
 
Este conflito continua me perseguindo já há cinco anos. Com certeza, o serviço público federal permite algumas vantagens, um salário um pouco melhor, uma possibilidade de aposentadoria com um vencimento um pouco melhor, mas as vezes, a gente fica se perguntando se tudo isso vale a pena.
publicado por drtakeshimatsubara às 02:12 | comentar | favorito