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Mai 10
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RAMÃO PEREZ

RAMÃO PEREZ Conheci Ramão Perez nos meus primeiros dias como médico em Dourados, há mais de vinte anos. Sua neta havia nascido com problema grave nos olhos e eu, juntamente com o dr. Marcelo, cuidamos dela no berçário do Hospital Evangélico. Ela necessitou de várias cirurgias ao longo da vida. Aos poucos, fui conhecendo sua família, sua esposa, suas filhas, netos e netas, cuidava ora de um, dali a pouco nascia outro neto, e assim, nossa amizade foi se solidificando. Falar do nosso querido “Tio Ramão”, como nós carinhosamente o chamávamos, é falar de um homem que tinha um órgão que tomava todo o seu corpo: o CORAÇÃO. Era um ser, desses que Deus de vez em quando manda para a Terra, para nos lembrar que é possível amar e ser amado. Que nos lembra que é possível viver fazendo o bem. Que nossas vidas não se restringem às riquezas materiais, à ambição, à cobiça, ao poder. Aliás, um homem que, se quisesse, teria sido riquíssimo, pois ocupou diversos cargos, seja público ou político, mas que nunca se apegou à matéria, nunca se ouviu falar, por quem quer que seja que ele tivesse ocupado um cargo para se beneficiar, a si ou a seus familiares. Era um homem que, quando diretor regional do Detran aqui em Dourados, atendia sempre com a porta aberta, pois dizia que não tinha nada a esconder, não tinha nenhum esquema corrupto a participar, e portanto, não havia motivo para atender as pessoas com as portas cerradas. Isto era apenas uma das demonstrações da honestidade daquele grande homem. Foi um esposo exemplar, que o destino não quis que completasse cinqüenta anos de um feliz matrimônio. Faltava pouco para isso... Pai amoroso, com o seu orçamento sempre apertado, conseguiu formar todas elas, que hoje são grandes profissionais. Avô extremado, ajudou suas filhas a criar vários de seus netos, cuidando-os como se fossem seus filhos. Maçom, foi um dos fundadores da Loja Maçônica Justiça Liberdade e Disciplina, e, juntamente com o Tio Beto, nosso querido Alberto Nacin Abrahão, formava a dupla de cabeça branca, amado e respeitado por todos os seus irmãos mais novos, pois quando emitia uma opinião, trazia consigo a bagagem de muitos anos de experiência, o que fazia com que nós todos parássemos para ouvir com atenção suas palavras. Durante quase vinte anos, foi o grande esteio, novamente junto com o Tio Beto, da Ordem DeMollay de Dourados. Todo o sábado chovesse ou fizesse Sol, lá estava nosso Tio Ramão, orientando, puxando a orelha quando precisava, dando sempre uma palavra de estímulo, de apoio a jovens meninos, naquela fase crítica, dos quinze, dezoito anos. Quantos homens bem sucedidos de hoje, passaram pela ordem e tiveram o seu destino mudado pelas palavras e pelo exemplo do Tio Ramão? Talvez o destino de muitos tivesse sido outro, não tão feliz, não fora a oportunidade de conviver com aquele homem de cabelos brancos, fala macia, sempre com um sorriso nos lábios, um homem que transbordava amor em seus gestos e palavras. Tanto amor, mudou o destino de muitas pessoas, inclusive a minha. Um homem que com 78 anos, não havia se aposentado, continuou trabalhando até os seus últimos dias. Tinham tantos para cuidar, tanta coisa para fazer, que, mesmo com a saúde abalada, lá estava nosso incansável guerreiro, no batente, trabalhando como despachante, após ter sido gerente, vereador, e muitas outras ocupações que já citei acima. A vida de Ramão Perez nos leva à uma reflexão, de que realmente, o que vale na nossa vida são os nossos gestos, são as nossas obras, as nossas palavras. Um homem sem grandes posses, que vivia frugalmente, com seu Peugeot 106 já velhinho como ele, numa casa simples, mas sempre rodeado de pessoas que verdadeiramente o amaram e gostavam, não pelo que ele tinha, mas pelo que ele era. Um exemplo a ser seguido, cuja ausência física, vai fazer muita falta. Freqüentar as reuniões dos DeMollay ou da Loja Maçônica Justiça, vai ser doloroso no início, sempre a nos lembrar o quanto sua figura faz falta. À família de Ramão Perez, nosso agradecimento, por nos ter dado a honra de conviver com um homem tão maravilhoso. Tão pleno de AMOR. Obrigado, Tio Ramão. Sua imagem ficará para sempre nos nossos corações, à espera de um reencontro. Que eu espero não tão breve... TAKESHI MATSUBARA Médico.
publicado por drtakeshimatsubara às 15:59 | comentar | ver comentários (8) | favorito
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Mai 10
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PALESTRA PARA COMEMERAÇAO DOS 10 ANOS DA FACULDADE DE MEDICINA DE DOURADOS, UFGD

PALESTRA PARA COMEMERAÇAO DOS 10 ANOS DA FACULDADE DE MEDICINA DE DOURADOS, UFGD Bom dia a todos. É um imenso prazer e uma honra ser convidado para participar das comemorações dos 10 anos de fundação da faculdade de Medicina de Dourados. Acredito que a maneira correta de fazer isso é nomeando as pessoas que fizeram parte da história desta faculdade. Como não podia deixar de ser, as duas pessoas mais importantes nesta historia foram o dr. Jorge João Chacha, reitor da UFMS na época, 1999-2000 e o Professor Wilson Valentin Biasotto, diretor do CEUD na mesma época. Sem essas duas pessoas a história nem teria começado. Uma vez que ambos conseguiram 50 vagas para trazer para Dourados, foi convidado a Associação Médica da Grande Dourados, através do seu presidente da época, Dr. Leidniz Guimarães da Silva. O mesmo me convidou, Takeshi Matsubara, pois era o secretário da entidade, juntamente com os drs Alexandre Brino Cassaro e Dra. Denise Nemirovsky. Nós quatro, aos quais foram acrescidos os drs Eduardo Marcondes e dr. Raul Espinosa Cacho, formamos o sexteto que foi nomeado para elaborar, com a preciosíssima ajuda da Professora Dirce Ney, o programa político pedagógico, as ementas das disciplinas e a carga curricular que comporiam as séries. Inicialmente, pensou-se em implantar um método educativo baseado no PBL, ou seja, Problem Based Learning, ou aprendizado baseado em problemas, cujo método pedagógico, implantado a partir da década de 50 em escolas médicas conceituadíssimas, com Maastricht na Holanda, ou Harvard, nos Estados Unidos. No Brasil, o sistema havia sido implantado em Londrina, na UEL e em Marilia, na Famema.Porém o Conselho Universitário da UFMS, de Campo Grande, não permitiu essa mudança e ficou-se com o sistema tradicional de ensino. Em meados de setembro de 1999, a Associação Médica de Mato Grosso do Sul, O Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul e o Sindicato dos Médicos DE MS, elaboram uma nota conjunta, declarando-se contrários à implantação do curso de medicina de Dourados e da Uniderp, em Campo Grande. A Associaçao Médica da Grande Dourados, reage, convocando a sociedade para sair para as ruas, em defesa do curso. O professor Chacha, em entrevista a uma emissora de rádio de Dourados, declara em alto e bom som, que nada poderia abortar o curso de medicina de Dourados. Para o primeiro ano, da primeira turma, cujos alunos foram aprovados em um concurso vestibular concorrido, e cujas aulas se iniciaram em abril de 2000, A Associação Médica, com seus médicos, juntamente com vários professores cedidos pela UEMS, e pelos cursos de Agronomia e Biologia da UFMS, Campus Dourados, juntamente com os prédios destas entidades, as salas de aulas, os laboratórios os cadáveres do laboratório de Anatomia da Enfermagem, os microscópios dos cursos de Agronomia, Biologia, enfim, um improviso total, para oferecer o mínimo do decente, para se criar um curso de Medicina do NADA, sem absolutamente nada que se pudesse chamar de Faculdade de Medicina, exceto a vontade comum de criá-la. Vieram alunos do Brasil todo cursar o primeiro ano, tais como alunos de Goiânia, Uberlândia, Cuiabá, Campo Grande, Belo Horizonte, etc. Alunos recém saídos da adolescência, com seus dezessete, dezoito anos de idade, em sua maioria. A Dra. Denise teve a idéia (brilhante, por sinal), de criar uma Comissão OMBRO, para oferecer um ombro amigo para esses jovens. Eu tive a honra de fazer parte dessa comissão e posso dizer que foi uma experiência muito rica em vivências. Ora era uma aluna que chorava de saudades dos pais distantes; outras vezes, éramos chamados de madrugada para ir ao Pronto Socorro, socorrer um aluno que havia se envolvido em brigas durante uma festa, machucando, fraturando ossos, etc. Teve um aluno que brigou com o irmão, e para não bater neste, deu um murro numa mesa com vidro, cortando o antebraço e necessitando de várias cirurgias. Teve também o caso de uma aluna que ficou grávida do namorado e nós da comissão fizemos tudo que estava ao nosso alcance para oferecer um apoio nessa hora difícil. Ela depois acabou perdendo o bebê, mas nós ficamos nos sentindo um pouco avôs daquele bebê que não vingou. Tivemos também aluno que precisou de terapia da Dra. Marilda, psiquiatra, outra que fazia parte da comissão e ajudou muito aluno com seus quadros depressivos ou ansiosos. Ser professor nos primórdios do curso médico foi muito mais que ensinar medicina, aprender com os alunos, vivenciar juntos suas angústias, seus medos, trazer para dentro de nossas casas filhos adotivos, que nos permitiram, além do aprender, crescer e nos tornarmos seres melhores. No final do ano de 2000, teve eleição para reitor da UFMS, e foi eleito o candidato menos votado pela comunidade universitária, Professor Manoel Catarino Peró, e este indicou para dirigir o CEUD, o Professor Omar Daniel. Aí sim, as coisas, se já não estavam boas, ficaram muito mais difíceis. Estes dois tentaram durante todo o tempo que durou o mandato deles, implodir o curso médico de Dourados e levar as vagas para Campo Grande. Um exemplo da atitude de ambos é o prédio da Faculdade de Ciências da Saúde, do Campus II, cujas obras começaram em 2000 e ficaram parados até 2005, ou seja, todo o período que se levou para formar uma turma de medicina, a primeira turma de medicina de Dourados, o esqueleto ficou abandonado, ao relento, à espera de uma verba que nunca chegava para ultimar seu acabamento e comprar os equipamentos necessários para compor os laboratórios e salas de aulas. Terminado o curso básico, os alunos da primeira turma começam a ter aulas clínicas e com elas, havia a necessidade de hospitais, postos de saúde, pronto socorro, etc, para que pudessem ter a parte prática do curso. Faltavam professores, e aqueles abnegados que haviam abraçado o curso, ensinavam diversas disciplinas, dando as aulas do ciclo básico, como anatomia e histologia, e aulas do curso clinico, como semiologia, clínica médica, etc. Tudo sempre de graça. Em 2004, o curso entrou em seu período mais crítico, com falta de convênio com hospitais ou postos de saúde, dificultando ainda mais o ensino prático para os alunos. Diante da total falta de perspectiva, os professores e os alunos fizeram uma greve, solicitando a contratação de professores, a compra de materiais didáticos e a estruturação do curso, mas mais uma vez, tudo ficou apenas na promessa. Uma equipe do Globo Repórter veio até Dourados, para fazer um programa comparando nosso curso com a estrutura da Escola Paulista de Medicina. Eu fui um dos entrevistados da época. Lembro que aquele programa, foi uma sacudida que mexeu com os brios de todos, principalmente professores e alunos, e motivou ainda mais as lutas para conduzir a faculdade de medicina contra tudo e contra todos os obstáculos. Os alunos do sexto ano (primeira turma) saíram pelo Brasil afora, para fazer o seu internato, e nós continuamos dando aulas para os alunos da primeira a quinta série. As coisas começaram a aclarar somente com a criação da UFGD. Esta, por sua vez, só foi possível de ser implantada, porque tínhamos o curso de Medicina em Dourados. Finalmente, a verba para a conclusão do prédio da Medicina foi liberado, e as obras recomeçaram. Ao final do ano de 2005, tivemos a formatura da primeira turma, e eu fui convidado para ser o padrinho da turma. Olhando para trás, vemos o quanto a luta foi desigual e injusta, mas o quanto é saboroso vencer os obstáculos. Quando eu penso em todos aqueles que lutaram ( e foram muitos) para que o curso de Medicina de Dourados fracassasse e as 50 vagas anuais pudessem ser levados para Campo Grande, eu sinto o quanto nós fomos vitoriosos. Olhar para aqueles meninos e meninas que hoje se tornaram médicos, que foram aprovados num índice inimaginável, nos exames de residência dos melhores serviços do país, e que hoje se tornaram grandes especialistas, prova o quanto valeu a pena. A Faculdade de Medicina de Dourados ainda não deve estar perfeita, mas hoje, sabemos que, pelas provas de avaliação, nossos alunos são os melhores do Estado, me enche de orgulho e me faz sentir vingado. A Faculdade de Medicina de Dourados é o tapa de pelica na cara dos invejosos que lutaram para nos destruir. Muito obrigado.
publicado por drtakeshimatsubara às 04:02 | comentar | favorito