O TIGRE E O BRASIL

O TIGRE E O BRASIL

Esta semana, vimos pelos sites de relacionamento e pelo noticiário televisivo, vídeos mostrando um menino de 11 anos em Cascavel, PR, que pulou o muro de proteção do zoológico da cidade e se aproximou perigosamente das grades onde estavam um leão e um tigre, provocando-os de todas as maneiras possíveis, até que finalmente, terminou sendo atacado pelo tigre e com um membro superior dilacerado, que culminou com a amputação ao nível do ombro.

Imediatamente, a sociedade reagiu, gerando uma discussão desencontrada sobre o tema. Uns culpando o animal, clamando para que o mesmo fosse sacrificado, diante do risco que ele representava para a sociedade?!?!?! Outros culpando o zoológico, que não dispunha de vigilantes para cuidar e fiscalizar os visitantes!

Todas as sociedades e civilizações, ao longo da história, tiveram um ciclo parecido. Existe um crescimento acelerado, seja através do poder militar ou da circulação das riquezas, um ápice, com a liberalização dos costumes, e um fim.  Vide o império romano, que cresceu desmesuradamente, dominou todo o mundo ocidental da sua época, gerou uma riqueza incalculável, que foi perpetuada através de templos e monumentos que resistem até os dias de hoje, acabou nas bacanais e orgias, que duravam dias, regadas a vinho, onde o sexo e a libertinagem não tinham limites, até terminar num desmoronamento moral que implodiu o império como um todo.

O Brasil não podia ser diferente. Passou por um período conservador, veio a ditadura militar por 21 anos e, em 1988, quando do término do ciclo ditatorial, tivemos a Assembleia Nacional Constituinte, que criou uma constituição liberal, que deu origem ao Estatuto da Criança e do Adolescente, cheio de regras e leis superprotetoras e paternalistas, que está gerando uma sociedade onde pais inseguros, não estão sabendo educar seus filhos. Sem saber como lidar com os pimpolhos, inteligentes e muitas vezes, manipuladores, os pais modernos se encontram de mãos amarradas, tentando jogar para a sociedade, para as escolas e para outrem, a função de educar, de colocar limites e ensinar princípios para seus filhos.

O jornalista Tite Simões, em seu blog, escreveu um brilhante texto, “ O tigre, o menino e o trânsito” onde discorre sobre os fatos ocorridos em Cascavel com o menino de 11 anos em seu incidente com o tigre do zoológico daquela cidade. É uma profunda reflexão sobre a nossa sociedade brasileira, onde as palavras chaves são “obediência e educação”. Estamos falhando, enquanto famílias, a inculcar em nossos filhos o conceito de obediência. Esta palavra simboliza a chave para a falta de educação e limites que vemos todos os dias pelo país afora, e quem trabalha diretamente com sala de aula, tem visto cenas de terror, com alunos e alunas desrespeitando diuturnamente seus professores, pois, se eles gritam e xingam seus pais, porque não fariam o mesmo com um professor?

Na Copa do Mundo de 2014 no Brasil o que mais chamou a atenção dos brasileiros, fora as derrotas humilhantes para a Alemanha e a Holanda, foi o comportamento dos torcedores japoneses, ao final dos jogos, quando eles, voluntariamente, saíram fazendo papel de garis, catando os copos descartáveis, papéis, restos de comida  e outros lixos que nós temos o hábito de deixar em qualquer lugar, coletando-os em sacos de lixo e deixando-os nas lixeiras. Na sociedade japonesa, a maioria dos mercados e mercearias é de autoatendimento, ou seja, o freguês entra na loja, vê o preço do produto que ele está comprando e deixa o valor correto nos caixas, sem necessidade de câmeras de fiscalização ou de funcionários para cobrar a fatura. Claro que nas cidades com grande quantidade de imigrantes brasileiros, andaram tendo problemas com este sistema. Nas escolas japonesas, não há necessidade do professor gritar e chamar a atenção dos alunos para que fiquem quietos, pois esta noção básica, eles trazem de casa, aprendem isso com os pais. Recebem educação para isso.

Como bem definiu o jornalista Tite, a educação é o comportamento correto que temos, sem a necessidade de fiscalização, de supervisão. No trânsito, todos nós deveríamos saber que, se temos placas dizendo que a velocidade máxima permitida é de 100 km, todos deveríamos andar no máximo nessa velocidade, e não instalar aparelhos de GPS nos carros, que nos avisam onde estão instalados os radares e os aparelhos de fiscalização, e, nos locais livres das câmeras, sentar o pau no acelerador, ultrapassar em locais proibidos, etc. Cidades como São Paulo, tiveram uma redução importante dos acidentes graves nas vias expressas, com a instalação de radares por todo canto, de modo que os motoristas finalmente estão criando o hábito de obedecer a velocidade permitida. Obediência mediante fiscalização, mas não educação de trânsito, para dirigir de modo correto, para não sofrer acidentes e não morrer ou matar alguém. Tanto a falta de obediência como a falta de educação permeiam o nosso comportamento social. E nossos filhos refletem esse comportamento inadequado.

A falência da sociedade começa em sua célula básica, ou seja, na família. Se a sociedade se torna cada vez mais permissiva, se perdemos a noção do que é certo e errado, pois os meios de comunicação e a mídia tentam nos vender a imagem de que tudo é permitido, claro que os pais não vão saber passar valores para seus filhos. As famílias desagregadas, com pais separados, múltiplas uniões, têm maior dificuldade de criar vínculos fortes e de se educar os filhos, pois existe um acordo tácito nesses casais, onde o padrasto ou a madrasta não deve interferir na educação do filho do companheiro ou companheira, pois eles não são os pais biológicos daquela criança. São apenas “tios” e como tais, não podem dar broncas, não podem colocar limites, pois estes atos educativos quebram o equilíbrio instável que regem esses segundo ou terceiro casamentos. E dê-lhe falta de educação e de obediência.

Como disse no início, toda sociedade tem sua fase de liberdade exagerada, que culmina com o fechamento e a volta do conservadorismo. Foi através deste mecanismo que a civilização humana conseguiu sobreviver a tantas crises durante a sua longa história. Acredito que estejamos nos estertores desta sociedade permissiva e que precisamos urgentemente, rever nossos conceitos, nossas leis, a nossa Constituição. Os erros vão se avolumando e vemos, por todo lado, a falência deste nosso modelo de sociedade. Se quisermos salvar nossos filhos e netos, precisamos rever esse modelo social, nossa maneira de lidar com as falhas que percebemos e corrigi-los enquanto dá tempo ainda. Precisamos rever nossa espiritualidade, valorizar mais a presença de Deus em nossas vidas, vivermos de maneira mais espiritualizada e menos materialista, menos voltado para os sentidos físicos e a valorização do consumismo desenfreado, que tem criado famílias onde impera o egoísmo e o egocentrismo, em detrimento do espiritual e da fraternidade. Famílias voltadas apenas para a acumulação de bens materiais, onde todo esforço é devotado para comprar objetos, celulares de última geração, brinquedos caros,  carros, mansões, e não sobra tempo para passarmos valores para nossos filhos, para ensinarmos para eles, desde pequenos, noções elementares de ética, de moral, de respeito, de educação. Precisamos de famílias onde o amor e o respeito não precisam ser falados, mas demonstrados diuturnamente no modo como lidamos com o(a) companheiro(a), com os filhos, no modo amoroso e respeitoso como lidamos com os idosos, com as pessoas que nos rodeiam.

Quem sabe assim, não tenhamos mais que assistir a cenas horripilantes de um menino de 11 anos tendo o braço arrancado por um tigre, porque desrespeitou a regra básica de que devemos nos manter distantes de animais selvagens, pois eles têm o instinto de caçar e atacar suas presas.

Quem sabe assim, tenhamos professores sendo respeitados por seus alunos, que vão para a escola para estudar e aprender, não para afrontar, ameaçar, desrespeitar o mestre.

Talvez um dia, tenhamos uma sociedade civilizada, onde todos tenham noção clara das leis, seja de trânsito ou dos códigos civil e penal, e não tenhamos tantos presídios superlotados e violência generalizada nas ruas.

Quem sabe?

 

publicado por drtakeshimatsubara às 16:57 | comentar | ver comentários (1) | favorito