FILHOS

FILHOS

A sociedade moderna, após a década de 70 e 80, valorizou a diminuição do número de filhos nas famílias brasileiras. Estamos hoje com uma média de 1,8 filhos por casal, e isso tem uma série de consequências na nossa estrutura social.
Em primeiro lugar, são muitos os casais que resolvem não ter filhos. Seja por medo da violência, da falta de coragem de colocar um filho neste mundo tão cheio de maldades, seja por problemas biológicos, a verdade é que estas famílias sem filhos vivem em função do aqui e agora, sem se preocupar com o amanhã.
Outros casais, resolvem ter um filho apenas. Investem tudo naquele filho. Aulas de inglês, piano, kumon, esportes, natação, reforços escolares, terapia, etc. Ufa! Fazem uma programação da vida daquele filho desde antes dele nascer. Irá estudar nas melhores escolas,desde o maternal para que no futuro, faça a melhor faculdade, escolhem as vezes a profissão do filho, esquecendo de um pequeno detalhe: Esquecem de perguntar para o filho o que ele gostaria de fazer...
Em geral, os casais escolhem ter dois filhos, de preferência um casal de filhos. Também fazem uma programação, embora não tão rígida como no exemplo anterior, mas investem todas as fichas na educação, da melhor forma possível, para aqueles filhos, para que tenham a possibilidade da escalada social.
Já as famílias com 3 ou mais filhos são a exceção à regra. Seja por um acidente (a laqueadura que falhou, a camisinha que furou, o diu que não deu certo,) ou mesmo por opção, são a raridade nos dias de hoje. O mundo moderno conspira contra essas famílias: Quando viajam, quando vão para os restaurantes, nos quartos de hotéis, etc, tudo é planejado para no máximo 2 filhos, sendo quase sempre necessário alguma adaptação.
Outra mudança ocorrida na sociedade neste últimos cinquenta anos, foi a mudança das famílias, que antes eram multinucleadas e rurais, ou seja, conviviam nas fazendas ou nos casarões os avós, tios, sobrinhos, junto com os pais e filhos, para as famílias nucleadas, ou seja, somente pais e filhos. Não há , nas famílias de hoje, espaço para o convívio com muitos parentes e, com isso, perdeu-se também a troca de experiências. As famílias de antigamente tinham a participação de todos, ou seja, os avós davam opinião, bem como os tios e primos ajudavam na educação, e essa troca de informações enriquecia, de certa forma, a educação familiar. É claro que isso motivava brigas, desentendimentos, e outros danos, mas em geral, as famílias superavam essas dificuldades. Com a perda dessa fonte de informações, os pais modernos buscam informações com médicos, professores, vizinhos, internet, etc.
Na verdade, toda vez que nós olhamos o passado com nostalgia, podemos dar margem à fantasia e idealizações, ou seja, podemos imaginar que no passado era melhor que nos dias de hoje. Na verdade, nem sempre isso era verdade. Podemos nos esquecer que no passado, as famílias tinham muitos filhos porque a mortalidade infantil era muito alta e não raro, em famílias que tinham tido dezenas de filhos, um grande número deles morria, de sarampo, pneumonia, diarreia, desnutrição, etc. Além disso, nos grupos familiares numerosos, havia uma crença que os mais velhos eram sábios e deviam ser obedecidos cegamente, dando azo a muita crendice e informações errôneas que eram transmitidos de avó para mãe para filha.
A grande verdade é que as famílias de hoje, buscam de alguma forma, não errar ou errar menos, na educação dos filhos.
Precisamos ter em mente que na verdade, a questão prioritária é qualitativa e não quantitativa.
Em primeiro lugar, não adianta encher o filho de atividade desde que ele nasce, mas sim, escolher aquelas `as quais ele tem maior dom e preferência. Não podemos perder de vista que criança precisa brincar e não ter o dia todo ocupado com atividades maçantes e cansativas.
Precisamos aprender, enquanto pais, que, na natureza, o excesso de adubo mata a planta. O excesso de amor, sufocante e exagerado, pode sufocar as potencialidades do nosso filho. E estragá-lo pelo resto da vida. Eu tinha um professor, já falecido, que foi meu grande mestre, que dizia que estamos vivendo a geração “moyashi”. Para quem não sabe, moyashi é o broto de feijão, que nós comemos na salada e que é muito usada na culinária japonesa. Para se ter o moyashi, coloca-se o feijão apropriado, chamado feijão azuki, para brotar, num ambiente sem luz e com muita água. Ele cresce mole, sem caule, sem estrutura. Esta é uma geração onde os pais protegem tanto os seus filhos das dificuldades da vida, que eles crescem sem estrutura, sem caule, sem forma e moles, não resistindo a nenhuma dificuldade. Isto tem causado, no Japão, um índice assustador de jovens que se suicidam, quando têm uma frustração, seja profissional ou afetiva.
Outra coisa que não podemos perder de vista é que a vida é do filho e não nossa. Aprender a respeitar os seus anseios e desejos, quais são os objetivos de vida, os seus projetos profissionais, as suas relações. Procurar não transferir nossas frustrações e desejos não realizados para que nosso filho o faça por nós.
Enfim, precisamos aprender que ter filhos, educá-los e prepará-los para a vida é uma grande arte, onde precisamos dosar paciência, conhecimento e, principalmente, muito amor. Mas na dose certa. Não é uma empreitada fácil, mas não é nada impossível, desde que nós possamos manter, acima de tudo, o bom senso e a sabedoria.

publicado por drtakeshimatsubara às 01:40 | comentar | favorito