PEDIATRIA

 

PEDIATRIA
 
Há 25 anos, exerço a Pediatria, que tem sido a minha segunda paixão, depois da Silvia e dos meus filhos. Esta especialidade, tão exigente e difícil, exerce um fascínio irresistível em nós, pediatras.
Apesar de alguns espinhos, como os telefonemas despropositados nas horas impróprias, da recepção de bebês de madrugadas, dos plantões e de outras funções não tão maravilhosas, eu acho esta especialidade sensacional, pois ela é difícil de ser exercida, se não o for com intensidade e paixão.
Sempre que eu vou a alguns lugares públicos, minha esposa dá boas risadas, pois reconheço embevecido, como se fora um pai coruja, quando vejo um ex-paciente ou uma ex-paciente, jovem, bonita andando pelos shoppings ou pela rua. Dou um cutucão nela e digo: “Aquela foi minha paciente...” Sinto um orgulho indescritível, ao vê-los, quando se destacam em alguma coisa, ou quando se tornam pais e trazem seus filhos para que eu cuide deles. É uma sensação gostosa de dever cumprido, de missão realizada. Algumas vezes, pessoas me param na rua, para me dizer que seu filho fora salvo de alguma doença grave, há quinze, vinte anos atrás e que hoje se tornou um adulto, vencedor.
A medicina em si, é uma profissão linda, que nos permite vivenciar grandes momentos, de muita realização profissional, de muita gratificação. Se o médico souber colocar o dinheiro como uma recompensa justa pelo bom trabalho, e não um fim em si mesmo, ela nos permite vivenciar momentos de muita riqueza espiritual. Coisa que dinheiro nenhum consegue suplantar.
Há alguns anos, tem ocorrido um fenômeno preocupante nas escolas formadoras, ou seja, nas residências médicas, têm sobrado vagas na área de  Pediatria. Muitas vezes, faltam candidatos para preencher as vagas oferecidas, levando os serviços a diminuí-las paulatinamente. Enquanto os formandos em Medicina se digladiam para se tornar cirurgiões plásticos, radiologistas, e outras especialidades, a pediatria, juntamente com a Ginecologia e Obstetrícia, tem sido pouco procurado pelos candidatos. A grande maioria deles alega que as mães são muito chatas, que a especialidade é muito cansativa, que não suportam choro de criança, etc. São argumentos fortes, mas na verdade, esses espinhos escondem a grande beleza da especialidade.
Eu sempre digo que as crianças são seres muito especiais, que nos devolvem de forma proporcional, a atenção dispensada a elas. Se olharmos em seus olhos e dermos amor, recebemos o dobro do carinho. Se dermos apenas frieza e desatenção, receberemos indiferença.
A vida tem me ensinado que é muito melhor trabalhar com AMOR. Em todos os lugares, seja no posto de Saúde ou no consultório, é o mesmo amor, incondicional e sincero, que eu tenho dedicado aos meus pacientes, e tenho recebido muito mais, em gestos, palavras e formas de carinho.
Isto faz com que o dia transcorra rápido, as horas passam sem serem percebidas, pois o trabalho não se torna um fardo, mas uma forma prazerosa de se viver.
Enquanto fui professor da Faculdade de Medicina de Dourados, procurei passar para meus alunos, a beleza da especialidade. Graças ao bom Deus, acho que influenciei alguns alunos a escolher esta profissão. Nas aulas práticas, procurava ensinar que o exame de uma criança não deve ser o momento de torturar o paciente, mas sim de examinar, de maneira respeitosa e carinhosa, um ser que se encontra amedrontado, nos associando com dor e sofrimento. Este ensinamento eu tive com uma professora, há 25 anos, a Professora Ana Júlia, em Santo André, que sempre frisava o modo correto de se examinar uma criança, sem machucá-la e sem desrespeitá-la. Este ensinamento tem me acompanhado por toda a minha vida profissional.
Espero, sinceramente, que o cenário profissional tenha uma reviravolta, e que mais médicos queiram exercer essa linda especialidade, que voltem a aumentar a procura nos centros formadores de pediatria, pois o Brasil é um país jovem, com muitas crianças que precisam ser atendidas e cuidadas.
 
publicado por drtakeshimatsubara às 03:27 | comentar | favorito