MÉDICO PERITO E MÉDICO DA FAMÍLIA

 

MÉDICO PERITO E MÉDICO DE FAMÍLIA
Em 2005, fui aprovado no concurso público para médico perito do INSS. A princípio, fiquei dividido, sem saber se assumia o cargo, pois na época, exercia o cargo de médico da família do PSF do Parque das Nações II, naquele que foi, sem dúvida, o emprego mais gratificante que havia exercido na minha vida. O médico de família é um profissional que consegue se o quiser, resgatar a verdadeira função de médico, pois permite o conhecimento da integralidade dos problemas de saúde daquela comunidade onde se insere. Conhecendo o paciente em sua casa, os problemas psicológicos vividos pelos membros da família, os problemas sociais, econômicos, e até mesmo os problemas de higiene daquela casa, o médico pode fazer um trabalho abrangente, com uma visão do todo, e de forma preventiva. Apoiado em programas do Ministério da Saúde, pode fazer um trabalho preventivo de doenças como diabetes, hipertensão, doenças sexualmente transmissíveis, AIDS, tuberculose, hanseníase, etc.
Ao trabalhar com a comunidade, cria-se um vínculo forte com os seus membros. Tomando cafezinho, comendo um bolo feito em sua homenagem, ou simplesmente, “proseando” com os moradores, o médico de família cria um vínculo de amizade e respeito mútuo, que premia o profissional com o pagamento que não tem preço, ou seja, a satisfação do trabalho valorizado e reconhecido.
A equipe de saúde da família, composta por médico, enfermeiro padrão, 2 auxiliares de enfermagem e 5 agentes de saúde, foi uma sacada genial, pois permite um trabalho abrangente e completo com uma comunidade. De maneira semelhante a que ocorre com a polícia comunitária, esta relação íntima com uma população fechada, permite a criação de vínculos profundos, que fazem com que a relação seja baseada na amizade e respeito mútuo, fazendo esta forma de trabalho, um manancial de satisfação e realização profissional para todos que compõem a equipe.
Pois foi tudo isso que eu tive que deixar para trás, para assumir um concurso público, no serviço federal, cheio de armadilhas, de perseguições, de uma sensação constante de se estar sendo vigiado, pelo Big Brother chamado Estado, com seus pontos eletrônicos, com seus sistemas de pontuação do trabalho, onde é preciso atingir um índice determinado de negativas, para ser premiado com um sistema injusto de gratificação. Uma instituição federal, chamada INSS, vinculado a um Ministério da Previdência, onde o médico perito não é mais o médico assistente, aquele que conversa com o doente para ajudar a minorar sua dor, mas sim, um fiscal, um bedel do sistema previdenciário, à caça constante dos fraudadores, dos indivíduos que tentam receber um benefício pecuniário, muitas vezes imerecido. Isto faz com que o médico perito do INSS seja um profissional odiado pela população, vítima de agressões, sendo que dois profissionais já foram mortos no país nos últimos anos.
Ao fazer uma perícia médica, não nos é permitido  criar um dos elos fundamentais da medicina, qual seja, a relação médico paciente, pois ela dificulta a avaliação isenta. Quando se faz uma pericia, esta base da medicina é deixada de lado, o que é difícil e nos frustra enquanto médico assistente que havíamos sido a vida toda.
 
Este conflito continua me perseguindo já há cinco anos. Com certeza, o serviço público federal permite algumas vantagens, um salário um pouco melhor, uma possibilidade de aposentadoria com um vencimento um pouco melhor, mas as vezes, a gente fica se perguntando se tudo isso vale a pena.
publicado por drtakeshimatsubara às 02:12 | comentar | favorito