MEU PAI, TAKASUKE MATSUBARA

MEU PAI, TAKASUKE MATSUBARA No dia 10 de julho, após mais de seis meses de sofrimento e agonia, desencarnou Takasuke Matsubara, aos 87 anos de idade. Era uma figura calada, que raramente abria a boca, sempre com um livro nas mãos, com seus óculos de grau, e quase sempre com um sorriso no canto dos lábios, observando muito, escutando sempre e falando muito pouco. Era um homem austero, que imprimia em todos certo misto de temor e respeito, pois ao mesmo tempo era doce e carrancudo. Sua história, até onde ele nos contava, começou no Japão, onde nascera e vivera até casar e ter filhos. Segundo filho masculino de uma família de agricultores do Sul do Japão, região que sempre fora a mais pobre do país do Sol Nascente, estudou no Colégio Agrícola de Kumamoto Ken, o que naquela época, equivalia a uma faculdade. Após a Guerra da China, em 1937, onde o Japão venceu a China e dominou a região oeste daquele país, chamado Mandchúria, meus avôs paternos, e a família do meu pai, foram para aquela região, que se tornara colônia do Japão, para trabalhar na agricultura. Terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o Japão perdera a guerra e eles foram expulsos por soldados russos, que haviam invadido aquela região e entregue de volta para os chineses. Minha mãe sempre me contava com lágrima nos olhos sobre a retirada, quando em vagões de trem de carga, sem cobertura e sem teto, tomaram uma chuva torrencial e fria, o que fez com que minha irmã, segunda filha do casal, morresse ainda bebê, de pneumonia, devido às condições adversas. Ela mal pôde ser enterrada ao lado dos trilhos. Outros bebês e crianças que morreram nas mesmas condições, foram jogadas fora, com o trem em movimento, sem poder receber um enterro digno. Retornando ao Japão, no pós-guerra, com o país totalmente destruído, a economia em frangalhos, viram que não havia condições de se viver por lá e resolveram tentar a sorte no Brasil. Em 15 de agosto de 1953, aportam no Rio de Janeiro, onde ficaram de quarentena. Após o prazo de 40 dias de observação, foram para a Bahia, na cidade de Una, onde iriam trabalhar numa fazenda de plantação de cacau. Com três filhas moças, a mais velha com 11 anos, eles foram orientados pelos imigrantes japoneses que lá haviam se estabelecido, para fugir para o Sul, pois naquela época, havia um grande risco de estupro das meninas pelos baianos. Chegaram a Santana do Itararé, PR, onde meu tio materno havia se estabelecido e ajudou a minha família para que os mesmos pudessem sobreviver da agricultura. Foram anos difíceis, vivendo de favor, começando a vida do nada, somente com a vontade de trabalhar. Arrendaram as terras do meu tio e começaram a labuta. Após alguns anos, conseguiram comprar um lote e começar a cultivar a própria terra. Plantou feijão, milho, tomate começou uma criação de aves para produção de ovos, e depois, plantio de batata. Aos 51 anos, devido a vários problemas de saúde, se aposentou, passando a bola para o meu irmão mais velho, Ryuiti, que continuou a saga familiar. Depois de aposentado, curtiu muito a vida. Era um homem que gostava muito de passear, de viajar. Todo mês, ele fazia um tour pela casa de parentes, visitava amigos e filhas e começou a se interessar por caligrafia japonesa, “shodi” tornando-se um mestre no assunto. Gostava muito de falar sobre política, principalmente sobre a política do Japão, que acompanhava através dos jornais em língua japonesa, que ele sempre assinava e trazia as notícias daquele país. Era também fã incondicional das lutas de sumô. Acompanhava as lutas pelos canais de tevê por assinatura, ou em fitas gravadas ou mesmo pelos jornais japoneses. Participou ativamente do Clube dos Idosos em Dourados, aonde chegou a ser eleito presidente. Apesar do seu jeito calado, tinha muitos amigos e amigas. O que ficou evidente no seu enterro. Em janeiro, sofreu uma crise cardíaca, precisando ser operado, com colocação de quatro pontes de safena. A partir daí, começou uma longa agonia, com piora do seu quadro de megaesôfago, pois era portador de Doença de Chagas, passando a não conseguir mais engolir comida. Foi preciso passar uma sonda para alimentá-lo, até que finalmente, precisou fazer uma gastrostomia, ou seja, abrir um buraco na barriga para ligar o estômago com a superfície externa e poder por ali alimentá-lo. Sofreu várias quedas, pois seu equilíbrio não era muito bom, o que acabou ocasionando a formação de um coágulo na sua cabeça, que precisou ser operado e foi a gota d’água, num organismo já debilitado e acabou culminando com sua morte. A verdade é que nós pouco nos falávamos, mas foi um homem que granjeou respeito e admiração de todos, pois era um homem sério, e que quando assumia algum compromisso, levava até as últimas conseqüências a consecução do que se determinava a fazer. Enfim, foi um pai que deixa saudades e levou consigo para o túmulo um grande conhecimento e informações que não foi totalmente repassado para nós, seus filhos, mas que nos permite, juntando as peças, fazer um mosaico interessante e cujo resultado final é altamente positivo.
publicado por drtakeshimatsubara às 17:01 | comentar | favorito