ARCHIDUQUE FERNANDES, PARTE 2

ARCHIDUQUE FERNANDES, PARTE 2 Conforme eu havia prometido no post anterior sobre o dr. Archiduque Fernandes, eram muitas as histórias que ele contava. A grande maioria versava sobre espiritismo, que ele havia abraçado quando sargento do Exército, ainda na sua juventude. Uma das coisas que ele contava com orgulho, era o fato de ter vivido os anos duros da ditadura militar, nos idos da década de sessenta, quando era sargento, sem ter cometido crimes contra os direitos humanos. Contava ele que, em inúmeras oportunidades, ele fora forçado a prender pessoas na cidade de Santa Maria, RS, principalmente professores e alunos universitários, tidos como comunistas, e portanto, contrários ao regime militar. Contava ele que nessas oportunidades, tratava com civilidade, pois para ele, não se tratava de um inimigo, mas sim de um irmão que pensava diferente do sistema em vigor, e com isso, granjeara o respeito e a amizade de muitos prisioneiros. Contava também que seu comandante do quartel era também espírita e que, sempre ordenava aos seus comandados para tratar os comunistas prisioneiros com respeito e civilidade, de tal maneira que, quando encerrado o período da ditadura, o comandante foi convidado para ser o diretor do campus universitário, tamanho o respeito que ele granjeara com seus antigos prisioneiros. Contava também histórias sobre o período em que morou em Dourados, quando já médico formado, devido à sua formação de sargento do Exército, colocava as mães de seus pacientes na linha. Era um homem cheio de costumes próprios, um deles, era que o paciente que retornasse com ele, jamais poderia se esquecer de levar a receita médica que havia sido prescrito na consulta anterior. Quando elas esqueciam, o pau comia e elas levavam broncas homéricas. A grande maioria das mães se habituava e tinha o costume de fazer uma pastinha, onde arquivavam as receitas que ele havia prescrito e os exames que ele havia pedido. Alguns pais mais exaltados acabavam brigando feio com ele por causa das cobranças que ele fazia. Uma das máximas que ele usava sempre era: Quem planta sementes de “arranha-gato”, vai ter uma plantação de “arranha-gato”. Quem planta rosa, vai colher rosa. Ou seja, o plantio é livre, mas a colheita é certa. Ele dizia que numa encarnação anterior, fora um bispo da inquisição na Espanha, e que esta encarnação fora uma m... em sua vida, pois fizera misérias, abusara do poder e explorara as pessoas, de tal forma que na encarnação seguinte, ele veio como um escravo africano, que morreu no pelourinho de tanto apanhar e ser açoitado. Por isso, ele tinha certeza que nós vivemos e reencarnamos várias vezes, evoluindo um passo após o outro, sem dar saltos. Era uma pessoa extremamente disciplinada, que tinha o seu horário cronometrado para tudo. As suas consultas duravam exatamente 30 minutos. Se a mãe quisesse avançar neste tempo, ele dava um jeito de encerrar a conversa quando o tempo terminasse. Os seus estudos de medicina duravam uma hora cronometrada. Ele lia e relia se precisasse. Quando o seu cronômetro marcava o fim do tempo, ele parava a leitura onde estivesse. Enfim, era uma figura muito interessante e cheio de manias. Certa feita resolveu que se tornaria um saxofonista. Comprou um instrumento, aprendeu do zero a tocar, estudou partituras e fundou um grupo musical, “Serenata ao Luar” que era extremamente afinado e com repertório de muita qualidade. Era um estudioso do espiritismo e realizava estudos do “Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, onde ele formava grupos de estudos para destrinchar os textos, que eram discutidos semanalmente página por página. Ele gostava de dizer que não era um religioso, mas sim um estudioso da filosofia dos espíritos. E também um estudioso da ciência dos espíritos. A sua grande paixão da vida foi, sem dúvida, a Dona Ila, companheira até o fim, que como ele dizia, comera muita “carne de pescoço” e passaram juntos por maus bocados, principalmente na parte material, pois, quando sargento do Exército, com cinco filhos pequenos para cuidar, e o parco soldo que recebia, ela fazia um verdadeiro milagre para multiplicar o pão dia após dia. E sempre com aquele sorriso maravilhoso e a coragem que a caracterizavam. Falava com muito orgulho dos seus filhos, de todos eles, pois de uma maneira ou outra, haviam vencido na vida, cada um enfrentando as dificuldades de ser filho de um pai pobre, tendo vencido e se formado por méritos próprios, visto que pouco pudera ajudar financeiramente. E todos o amavam e o respeitavam com todas as particularidades que caracterizavam aquele homem. Na medicina, formou-se pediatra, numa época em que a maioria dos médicos eram generalistas e faziam de tudo. Precisou brigar por espaço no início, para poder atuar na sua especialidade. Logo, com sua personalidade forte e liderança nata, ajudou a fundar a Associação Médica de Dourados, pois ele dizia que os médicos precisavam deixar de ser um “bando” para se tornar uma categoria profissional de respeito. Em 1983, começou a fazer o curso de homeopatia da APH (Associação Paulista de Homeopatia), especialidade esta que ele praticou até os seus últimos dias. Como era muito estudioso, formulava teorias e fórmulas que depois eram seguidas por todos nós. Era um grande defensor da homeopatia francesa, com o uso de vários medicamentos ao mesmo tempo. Com isso, ao mesmo tempo em que era admirado por muitos, tinha alguns poucos que criticavam esta postura, pois para alguns homeopatas mais radicais e que seguiam a escola do medicamento único, o pluralismo é visto com desconfiança, como algo de categoria inferior. E esta era sua grande briga. Ele sempre dizia que enquanto o mundo científico persegue a homeopatia, os homeopatas ficam brigando por causa de bobagens, causando desunião e enfraquecendo a causa... Era um homem que, para aqueles que o conheciam superficialmente, era tido como um “casca-grossa”. De fato, ele usava uma moldura, uma máscara de material duro e rígido, mas era apenas uma defesa que ele utilizava para se defender do mundo. Por dentro da armadura, se escondia um ser maravilhoso, humano, sensível, sentimental e com um enorme coração, que havia sobrevivido a uma série de armadilhas da vida e se tornado um homem sábio, embora como todos nós, com alguns defeitos. Arrebatou uma legião de fãs em sua vida, que o tinham como verdadeiro pai e instrutor e que o amávamos e respeitávamos como tal. Deixou um enorme vazio na vida dos seus amigos, na homeopatia douradense e, principalmente, no Centro Homeopático de Saúde Pública de Dourados, que ele amou muito e pelo qual deu sua vida, e que passa por um vácuo, pela falta de sua liderança e da presença diuturna daquele homem que, mesmo nos seus últimos dias, já muito doente, quis freqüentar aquele local enquanto conseguia andar. Temos notícias de que ele já começou a aprontar do lado de lá, no mundo espiritual, onde continua estudando e trabalhando com um grupo de amigos desencarnados, nas lides diárias de ajuda aos necessitados e assistência aos espíritos endividados. Do lado de cá, a saudade permanece.

publicado por drtakeshimatsubara às 12:52 | comentar | favorito