O DRAMA DA SAÚDE PÚBLICA DE DOURADOS

O DRAMA DA SAÚDE PÚBLICA DE DOURADOS Durante um curto período, de novembro de 2002 a julho de 2003, ocupei o cargo de Secretário de Saúde de Dourados, na primeira administração do Prefeito Laerte Tetila, do PT. Aos poucos, fui tomando pé da situação calamitosa que vivia a saúde publica já naquela época. Não havia falta de dinheiro, pois embora ele fosse escasso, dava para pagar os compromissos. Porém, ficava evidente que a saúde pública era um grande sorvedouro de recursos e dava margem para desvios de todo tipo. Os principais davam-se em forma de licitações superfaturadas, obras super faturadas e o principal problema da saúde naquela época era o que Joelmir Betting dizia do “rabo que abana o cachorro”, ou seja, o Hospital Evangélico, que seria um mero prestador de serviços para a saúde publica, dominava por completo o Conselho Municipal de saúde e determinava como seriam os gastos e como seria gerida a saúde publica da cidade. Numa tentativa desesperada de fazer as coisas funcionarem, saí em busca de um sistema de informática para tentar minimamente gerenciar a saúde. Encontrei, através do coordenador de informática da prefeitura, um sistema operacional em Vitória da Conquista, na Bahia, que servia perfeitamente aos nossos desejos, pois poderia controlar os postos de saúde, os laboratórios, os exames, os ambulatórios de especialidade e, principalmente, a prestação de serviços hospitalares, na época restrita ao Evangélico, Missão Caiuás, Hospital do Coração e outros pequenos serviços. Sabia que, para que se pudesse gerenciar minimamente a Saúde Pública, era necessária que o Secretário de Saúde passasse a gerir os recursos, ou seja, até hoje, o Secretario de Saúde é uma verdadeira rainha da Inglaterra, ou seja, não manda efetivamente nos recursos da sua pasta. Tudo vem pronto da Secretaria de Fazenda e da Administração. Pelo menos, era assim na administração Tetila, assim com havia sido nos dois mandatos do Brás e no mandato de Humberto Teixeira. Tive reuniões com o prefeito e dei um ultimato, que se em três meses eu não gerisse o dinheiro, pediria demissão do cargo. Quando estava ultimando os passos para passar a administração financeira para minha pasta, sofri o infarto do miocárdio e tudo voltou para a estaca zero. Outra briga era a falta de comprometimento dos funcionários, que não atendiam adequadamente à população. Negociei diretamente com a Associação Medica para aumentar a resolutividade dos postos de saúde e dos PSF (programa de Saúde da família) para que os mesmos atendessem mais pacientes e resolvessem casos na unidade básica, como suturas, drenagem de abscesso, curativos, observação de pacientes sem necessitar de internação, etc. Tudo isso, mediante uma negociação de aumento do salário através de aumento da produtividade conforme atingissem metas pré-estabelecidas. Finalmente, havia um forte esquema de corrupção na Secretaria, com funcionários envolvidos em roubo de peças, pneus de ambulâncias, troca de peças novas por peças usadas, etc., que sangravam o erário público. Negociei com o comandante do Corpo de Bombeiros, para que, através de uma central de rádio, todas as viaturas e ambulâncias da prefeitura ficassem subordinadas àquele corpo, o que causaria um controle daqueles desmandos. Infelizmente, eu caí numa armadilha, montada pelos diretores do hospital Evangélico, com a cumplicidade de uma funcionária de dentro da Secretaria de saúde, que me jogou uma isca falsa e eu caí como um patinho nela. Ela me passou uma série de provas que incriminavam o Evangélico e as fraudes que ocorriam. Quando eu denunciei os mesmos, ela sumiu com todas as provas, me deixando falando sozinho e sem nenhuma prova do que havia dito. Com isso, perdi totalmente a credibilidade perante a opinião pública e caí em desgraça. Quando o Hospital Evangélico ameaçou deixar o SUS, tudo não passava na verdade de uma ameaça vazia, para conseguir aumento das verbas, pois o secretário municipal da época, era ligado ao hospital. Na verdade, tratava-se de um jogo, onde o hospital pedia o aumento, o secretário dava o que era pedido. Aí o hospital pedia mais, o secretário imediatamente aprovava. Quando o governador de Estado percebeu o jogo, interveio e ocorreu uma suspensão total da negociação. O fato é que o hospital foi obrigado a suspender o atendimento pelo Sus. Isto causou o caos na cidade, pois bem ou mal, o Evangélico atendia uma grande parcela dos pacientes pelo Sus. Eles quiseram ficar somente com a alta complexidade, como os casos de câncer, de hemodiálise, ortopedia e neurocirurgia. Quando perceberam que o prefeito estava em maus lençóis, em virtude da briga política, o Evangélico negou atendimento para os casos de neurocirugia que ela, por contrato, deveria atender. Com isso, centenas de pessoas perderam a vida, por falta de atendimento especializado e, principalmente, de cirurgia e de UTI. Quando entrou o governo Ari Artuzi, houve imediatamente uma retomada da negociação do Evangélico com a prefeitura, para repassar para a entidade a gestão do Hospital do Trauma e do Hospital da Mulher. Mediante uma mesada de R$3.000.000,00 o Evangélico prestaria atendimento no Hospital do Trauma, em atendimento de Pronto Socorro, Pediatria, Ortopedia, neurocirurgia, oftalmologia, cirurgia plástica, cirurgia geral, otorrino, endocrinologia, urologia, nefrologia, cardiologia, etc. De fato, ela ofereceu apenas atendimento com clínicos gerais, pediatras e ortopedistas. A neurocirurgia foi contratada por R$100.000,00 por mês para que três médicos dividissem essa bolada para atender os casos cirúrgicos de neurocirurgia.Se for dividir os pacientes pelo valor recebido, cada procedimento cirúrgico saia mais caro que se fosse atendido pelo convenio ou particular. Ou seja, foi um excelente negocio para os médicos envolvidos. Da mesma forma, os pediatras passaram a receber por plantão, bem como os obstetras, os ortopedistas e os cirurgiões gerais. Mas as outras especialidades que estavam no contrato, não foram contempladas. Restou portanto, para os clínicos gerais que davam plantão, para que os mesmos resolvessem casos que não eram de sua especialidade. Com isso, dos 3 milhões recebidos, mais de 2 milhões não eram gastos e eram desviados todos os meses para os bolsos do prefeito, vereadores, diretores do hospital e outros. É por isso que a população tem a sensação de que o atendimento na saúde publica piorou tanto. Era ilógico que, aumentando as verbas da saúde publica, de pouco mais de um milhão em 2003 para cinco milhões em 2010, piorasse tanto o atendimento da saúde na cidade. Além disso, a abertura do Hospital Universitário, que deveria desafogar o sistema, não conseguiu resolver todos os problemas, porque hoje, todos os casos que complicam no Hospital da Vida, são transferidos para aquele serviço ou para Campo Grande. Além disso, houve uma total desassistência das unidades básicas de saúde e da Estratégia de Saúde da Família , os ESF, que não tem medicamentos, materiais de consumo como receituários, pedidos de exame, materiais de consumo, etc. Tudo está em falta há mais de um ano. Quando eles se dignaram a fazer uma licitação de compra, tudo foi superfaturado, com os preços médios sendo mais do que o dobro do preço do mercado. Foi preciso a justiça embargar a licitação para se impedir mais um enorme desperdício de recursos, da ordem de dezenas de milhões de reais. Como vemos, os problemas da saúde publica são enormes, graves e insolúveis, se não houver um mínimo de seriedade e vontade de resolver de verdade a situação. Seria necessário fazer uma faxina em todos os escalões , principalmente nos setores de compras, pois estes funcionários que lidam com estes setores são suspeitos de atuarem de forma irregular. Esperamos que, após o furacão que varreu nossa Dourados, com a prisão de 29 pessoas, principalmente do prefeito, vice-prefeito, presidente da Câmara e vice, possamos viver uma aurora de reconstrução, onde pessoas serias finalmente ocupem cargos e setores financeiros da prefeitura e que um novo secretario de saúde possa ser nomeado, pois este que aí está, no mínimo é incompetente, ao permitir tantos crimes em sua pasta. Esperamos, de verdade, que os problemas sejam resolvidos e a população mais pobre, que necessita diariamente do sistema público, possa ser minimamente atendido, resgatando-se assim a cidadania e a dignidade dessas pessoas.
publicado por drtakeshimatsubara às 19:30 | comentar | favorito