EDUCAÇÃO

EDUCAÇÃO Recentemente, ao participar de discussões do blog do Valfrido Silva, www.valfridosilva.com, deparei-me com uma situação inusitada. Uma das comentaristas pede ao moderador que bloqueie as postagens de pessoas que escrevem com muitos erros de caligrafia e gramática. Ela própria, porém, cometeu alguns crimes contra a nossa língua pátria e isso gerou uma série de discussões acaloradas, com alguns defendendo a liberdade de expressão e o respeito pelas pessoas que têm dificuldade em se expressar, e outros descendo o “cacete” nos ditos analfabetos e em seus defensores. Eu fiz um comentário, criticando a forma preconceituosa como a comentarista havia se comportado, ao desrespeitar as limitações de uma pessoa que tinha uma formação insuficiente em português, não sei se por falta de anos de estudo ou falta de interesse ou mesmo por problema de algum distúrbio neurológico, sei lá... Porém, o fato gerou uma série de comentários, alguns a favor de minhas colocações, outro criticando o fato de eu, um médico, estar defendendo o analfabetismo. Uma das comentaristas, inclusive, imputou à classe médica o erro de se injetar vaselina numa paciente em São Paulo, o que ocasionara a sua morte, porque segundo ela, médico não sabe ler... Sabemos que o português é uma língua complexa, com inúmeras conjugações verbais, com uma gramática complicada e cheia de regras, com grafias diferentes para palavras que têm o mesmo som, mas sentidos totalmente diferentes, dependendo de uma diferença em uma ou outra consoante. Mesmo pessoas, ditas cultas, às vezes, cometem erros pueris de gramática ou de grafia. Parece-me que a única maneira de se aprender o português de uma maneira definitiva, é a leitura constante. Ao se ler centenas ou milhares de livros, acabamos inconscientemente, aprendendo a grafia correta das palavras, a concordância verbal, a colocação correta dos pronomes, etc. Porém, uma das grandes deficiências de nosso povo é justamente a falta de hábito da leitura. Ao se tentar obrigar os alunos a ler os livros de José de Alencar, Aluízio de Azevedo, Euclides da Cunha, Machado de Assis e outros, na verdade, na sua grande maioria, os professores acabam criando uma rejeição pela leitura, pois a grande verdade é que esses autores são um “saco”, livros que somos obrigados a valorizar por fazer parte da nossa literatura, mas que na verdade, são de difícil assimilação ou de uma grafia rebuscada e de difícil compreensão para os nossos jovens destes tempos modernos. A leitura tem que ser algo prazeroso, não uma obrigação. Precisamos incutir nas crianças, desde a mais tenra idade, a capacidade de se entrar no mundo imaginário, no reino da fantasia, que somente uma boa leitura nos proporciona. Em alguns países, como o Japão, as pessoas têm o hábito de carregar livros de bolso para onde quer que se vá. Nas praças, nos trens, nos ônibus, enfim, em qualquer tempo livre, os cidadãos estão lendo os seus livros. Isto cria uma cultura, onde as livrarias são em grande número, muito freqüentadas e as impressões de livros são feitos aos milhares, barateando o custo de cada exemplar. É claro que isto é fácil, num país onde 90% da população têm nível universitário e o analfabetismo é algo inexistente. O nosso grande desafio para este século é zerarmos o nosso índice de analfabetismo. As nossas escolas primárias têm que rever o seu modelo, pois temos muitas escolas onde o índice de analfabetismo funcional é imenso, ou seja, o aluno chega à quinta série, mas não consegue escrever um ditado, ou mesmo interpretar um texto. Teoricamente ele está alfabetizado, sabe escrever o “beabá”, mas não consegue entender o que escreveu ou leu. As escolas estaduais de nosso Estado cometeram um crime, ao criar o modelo seriado, onde os alunos, mesmo que cheio de deficiências, não podia ser reprovado e era empurrado para frente, sem saber ler, escrever ou fazer contas. Com isto, com o passar dos anos, aumenta assustadoramente o índice de evasão escolar, com turmas cada vez menores, conforme vai se aumentando os anos escolares. A Educação é o grande desafio deste país que almeja se tornar uma superpotência mundial neste século, com o crescimento de nossa economia com taxas próximas aos dois dígitos, extremamente aquecida, com oferta ampla de empregos, mas cujas colocações de melhor remuneração ficam às vezes sem serem preenchidas, por falta de candidatos qualificados. Dizem que para melhorar a nossa Educação é necessário aumentar o salário dos professores. Em minha humilde opinião, isso somente não vai melhorar a qualidade de nosso ensino. Acho que o primordial é a valorização do profissional do ensino, e isso não se resume em aumentar os seus rendimentos. Esta valorização se inicia pelos salários também, sem dúvida, pois hoje, os salários pagos pela jornada de 4 horas são irrisórios, assemelhando ao salário de profissionais sem nenhuma formação acadêmica. Porém, mais do que aumentar somente os salários, é preciso que toda a sociedade passe a enxergar o professor e o profissional da educação, como alguém que é fundamental para a formação de nossa sociedade e do nosso conceito de cidadania. Que respeitemos este profissional, e ensinemos os nossos filhos que eles têm que ser vistos como os mestres que complementarão a sua formação, da mesma forma que queremos que os nossos filhos nos respeitem como pais. Não podemos, enquanto pais, permitir que os nossos filhos respondam de maneira mal educada às colocações e cobranças dos professores. É inaceitável que o professor chegue ao final de sua carreira com a grande maioria delas frustrada, com quadros depressivos, “encostados no INSS” ou aposentados por invalidez, como têm ocorrido nos dias atuais. Eu que trabalho na Perícia médica do INSS, fico impressionado com o número de professores e professoras de meia idade, a grande maioria com síndrome de “Burn-out” ou depressão, com crises de fobia somente de pensar em enfrentar uma sala de aula, lotada de jovens malcriados, que conversam nas salas, que não respeitam seus pedidos de permanecerem quietos e que não ligam a mínima para aquilo que o professor está tentando ensinar. Quando a escola chama os pais para reclamar dos seus filhos, eles reagem com indiferença, dizendo que o problema não é deles pais, mas sim da escola... Ou então, dizem ser um absurdo o professor ou a escola querer suspender o seu filhinho querido, que na sua casa é uma criança exemplar e que a falha está no professor, que não sabe dar aulas e cativar a atenção dos seus alunos... Para início de conversa, teríamos que criar escolas para pais. Precisaríamos repensar este nosso modelo condescendente e permissivo, onde todos passam as mãos na cabeça de todos, onde o excesso de legislação, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, as Leis contra isso ou aquilo, a Lei que torna um crime dar umas palmadas nos filhos, enfim, precisamos rever todo esse lixo criado para amedrontar os pais e torná-los incapazes de educar seus filhos, diante do medo de ser repreendido pelo Conselho Tutelar por tentar uma medida educativa mais enérgica. Precisamos ensinar aos pais que não podemos permitir o espancamento, a agressividade gratuita, a violência sexual contra menores, enfim, não podemos permitir os crimes contra os menores. Porém, encher a cabeça dos pais de dúvidas sobre até onde ele pode ir para educar os seus filhos, tentar educar apenas com base em palavras, sem a autoridade necessária, está criando uma geração que manda nos pais, que fala mal deles, os ofende e os “bananas” ouvem aquilo com a maior naturalidade, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Todas as sociedades têm a sua fase de sístole e diástole, onde uma fase extremamente moralista e repressiva é seguida por uma geração liberal e permissiva. Precisamos aprender que o correto está no meio termo, ou seja, “nem tanto ao mar, nem tanto a terra”... O ponto de equilíbrio está em permitir aos pais educar os seus filhos sem medo, com liberdade, baseada em seus valores morais recebido dos avôs, da soma cultural daquela determinada comunidade, baseada no limite, no amor, na energia na dose certa, para incutir nas crianças o respeito pelos seus genitores e, conseqüentemente, pelos professores e outros membros da coletividade. Com esta mudança de paradigma, talvez possamos resgatar o respeito pela educação, a valorização do profissional da educação e, com isso, possamos almejar uma participação na comunidade dos países desenvolvidos, com força na economia, mas também na cultura, nas artes, na geração de conhecimentos, na conquista dos Prêmios Nobel, enfim, possamos imaginar um Brasil rico, culto e educado. Quem sabe esse dia chegue antes do que nós sonhamos?
publicado por drtakeshimatsubara às 14:02 | comentar | favorito