A COPA DAS COPAS

A COPA DAS COPAS

 

Eis que, após um mês inteiro assistindo na televisão propagandas ufanistas, uma overdose de jogos de futebol e suas reprises nos canais esportivos, comentários e mais comentários sobre os jogos, as estratégias dos times, sobre cada jogador e sua jogada de craque, termina finalmente mais uma Copa do Mundo de futebol da FIFA. Com vitória merecida da Alemanha, disparado o melhor time dentre todos os que iniciaram a disputa.

E os brasileiros, que sempre se iludiram que esta Copa seria nossa, pois, por ser disputada em nossas terras, desequilibraríamos com nossa torcida apaixonada e esqueceríamos todas as mazelas que vivíamos fora de campo, com uma lavada dos nossos craques liderada por Neymar Jr. e David Luís. Sob o comando técnico de Felipão, treinador que todos sabíamos ser teimoso e turrão, mas que havia conquistado a simpatia de todos os brasileiros, ao levantar a Taça em 2002, no Japão, com um time que tinha um jogador que vinha de uma lesão grave, que para todos os céticos havia determinado o final precoce de sua carreira, com o rompimento de ligamentos no joelho que, para os simples mortais, seria uma sentença de morte na capacidade de jogar bola. Mas não para Ronaldo Fenômeno e para a teimosia de Felipão, que bancou o seu nome e obteve, no campo, a redenção do país, ao conquistar o título tão esperado. Pois bem, todos os brasileiros sabiam que tínhamos um time limitado, onde o único lampejo de genialidade brotava dos pés marotos de Neymar Jr. e os dez outros jogadores jogavam em função deste craque.

Quando o zagueiro colombiano Zuniga deu aquela joelhada nas costas de Neymar Jr, tirando-o dos jogos restantes, o time entrou em parafuso. O time ficou sem sua principal referência. Num time sem jogadores de criação, a bola dependia dos chutões da zaga até os atacantes, para que estes, num lance de genialidade, dominassem a bola e batessem para o gol. Ou de uma bola parada ou escanteio. Neste esquema, o futebol de Fred desapareceu, bem como os outros atacantes, pois a bola nunca chegava redonda até eles. Assim, tivemos a derrota vergonhosa e vexatória por 7x1 para a Alemanha nas semi-finais, placar este que foi limitado por iniciativa dos próprios jogadores alemães e de seu técnico, que limitou o placar, para um número que eles sabiam que poderia ter sido muito maior, pois toda jogada de ataque alemão resultava em gols, pois o nosso time estava morto em campo, totalmente descontrolado e sem a capacidade de dar a volta por cima.

O que aconteceu com o Brasil nesta Copa?

Quando todos esperavam uma Copa cheia de problemas, com assaltos aos turistas, com aeroportos lotados, com filas e atrasos nos embarques, com os movimentos de protesto paralisando o país, com centenas e milhares de pessoas nas ruas protestando, fazendo badernas e promovendo quebra-quebras, nada disso aconteceu, ou foi em muito menor intensidade que o esperado. É certo que foram tomadas iniciativas, como decretar feriados nos dias e locais dos jogos, para diminuir o trânsito das ruas, liberar os torcedores para ir os estádios. Mas mesmo com essas ajudas, as coisas transcorreram com normalidade, com tudo funcionando com certa regularidade. E os turistas estrangeiros ficaram encantados com a cordialidade e a simpatia do povo brasileiro, que recebeu o turista de braços abertos, o motorista de taxi se esforçava para falar um inglês limitado, mas conseguia se comunicar com o visitante de fora, apresentando a cidade e permitindo que o cidadão, que vinha cheio de medo, tivesse uma impressão melhor de nosso país e de nossas belezas naturais. O povo acolhendo os nosso hermanos, que vinham aos milhares, oferecendo banheiros, uma ajuda aqui e ali, para acolher os turistas dos nossos países vizinhos e historicamente nossos rivais em campo. Mesmo nos jogos de
times tidos como menores, como Grécia e Irã, os torcedores brasileiros lotaram os estádios, torcendo por um time ou por outro, fazendo com que esta Copa tivesse a melhor média de público dentre as vinte já realizadas até então. Foi chamada por nós de a Copa das Copas.

Neste campeonato, só faltou o anfitrião jogar uma bola redonda. Tivemos jogos contra times médios, como Croácia e México, onde a vitória ou empate foram arrancados a fórceps. O time foi avançando pelas fases, com muita dificuldade, mas nós não queríamos perceber isso, atribuindo as dificuldades às mudanças que haviam ocorrido no futebol, onde times tidos como azarões, como Costa Rica, Argélia, Grécia, avançavam de fase, enquanto times vencedores, como Itália, Espanha, Inglaterra iam ficando pelo caminho e voltavam precocemente para seus países. Neste contexto, a vitória nas penalidades para o Chile e a vitória sobre a Colômbia, eram passos naturais que nos levariam até a final no Maracanã e ao título. Só que faltou uma leitura adequada de nossa parte, desde torcedores, jornalistas e, principalmente, Comissão Técnica: O futebol mudou. O país mudou.

O Brasil há muito tempo é tido como o país do futebol. Em cada campinho de várzea, os meninos se reuniam e jogavam bola. Bastava os olheiros viajarem pelo país, promovendo as famosas “peneiras” que a todo momento, despontavam craques. Hoje, essa realidade está diferente. Os campos de várzeas sumiram, devido à especulação imobiliária. Os times de futebol que quiserem descobrir talentos, têm que investir em estruturas de escolas de futebol, preparando desde pequenos os jogadores com potencial, dando assistência, oferecendo condições para que os mesmos possam estudar e jogar bola, para que, desse funil saia um ou outro jogador com maior potencial para brilhar nos gramados. Mas temos visto que poucos times fazem isso.

Quando o jogador começa a despontar nos times, ainda meninos, são comprados pelos times estrangeiros, que investem neles e os tornam jogadores profissionais. Um exemplo disso é a Copa São Paulo de futebol Junior, aonde olheiros do mundo todo vêm garimpar jogadores meninos, que são comprados e levados para times espanhóis, italianos, ingleses, russos, árabes e chineses. Com isso, os nossos campeonatos nacional ou estaduais são competições com pouca qualidade técnica, com os poucos jogadores que despontam sendo imediatamente comprados pelos times dos outros países. Esta espiral, faz com que os times vivam praticamente da venda dos jogadores, pois alem de serem mau administrados, dependem das cotas da televisão e da venda de ingressos, com o público cada vez menor, fugindo dos estádios pois os jogos são sofríveis em termos de qualidade técnica.

Além disso, os "cartolas", como são chamados pejorativamente os dirigentes dos times, são pessoas despreparadas, muitas delas com outras atribuições profissionais, que dedicam parte de seu tempo para o seu time de coração, com total falta de profissionalismo e capacidade gerencial, ganhando comissões quando das vendas dos jogadores, mas sem uma preocupação maior com o esporte e com as mudanças que ocorreram ao longo do tempo.

Finalmente, temos a CBF, confederação que sempre esteve nas mãos de alguns poucos privilegiados, em mandatos sem fim, com muita corrupção, com muitas jogadas escusas que acabaram por minar totalmente a sua credibilidade. A entidade maior que promove o esporte nacional, não tem seriedade, depende dos favores políticos do governo, mas não presta contas para ninguém, com sua contabilidade totalmente secreta.

Como mudar tudo isso?

Em minha humilde opinião, precisamos profissionalizar o futebol. Formar empresas, voltadas para o lucro, com os torcedores como acionistas, com estrutura de formação de jogadores, onde a venda de materiais esportivos seja uma fonte de renda, bem como a venda de ingressos antecipados, por preços maiores, mas parcelados, por assinatura. Cada torcedor compraria uma cadeira de todos os jogos do seu time. Se ele não quiser ir assistir ao jogo, a renda daquele ingresso estaria garantida. Com melhor planejamento, seria possível investir na compra de bons jogadores, o que melhoraria o nível técnico dos jogos, melhoraria a audiência e por conseguinte, os direitos de transmissão dos jogos teriam um valor aumentado. Com as escolas de jogadores, teríamos criado uma cultura de formação, tanto para o esporte, como oferecer escolaridade para nossos jogadores, um problema crônico dos nossos analfabetos craques, que mal sabem enfrentar uma entrevista com jornalistas sem usarem chavões e lugares comuns.

E por conseguinte, profissionalizar a CBF, transformando-a numa representante dos times, com dirigentes eleitos na mesma lógica, com balanços anuais, prestação de contas, cobrança de metas e resultados, etc.

Temos que ter a humildade de copiar modelos, como o Barcelona, Manchester United, Real Madrid e outros, e aprender com eles como modernizar toda a estrutura que move este esporte genial, maravilhoso, que move multidões e que apaixona por seus lampejos de genialidade e arte.

Precisamos ter a humildade de contratar técnicos estrangeiros, para aprender novas táticas e novas formas de jogar o futebol. O modelo brasileiro, não se renovou e está hoje, sem condiçöes de enfrentar nossos adversários, seja latinos ou europeus, em igualdade de condições.

Só assim, poderemos evitar desastres como a humilhante derrota por 7x1 para a Alemanha ou a goleada por  3 a 0 para Holanda, que tristemente vão ficar em nossa memória, sempre que nos lembrarmos da nossa Copa das Copas, promovida em nosso país em 2014. Que era para ficar em nossa memória pelas comemorações do hexa-campeonato, mas tristemente vai ser lembrado pela maior humilhação que um país anfitrião já enfrentou em todos os certames até então promovidos.

Se nada for feito, receio que nós não teremos time para sequer chegar a participar da próxima Copa, na Rússia. Quem viver verá.

 

publicado por drtakeshimatsubara às 15:19 | comentar | favorito