A MEDICINA

A MEDICINA

Temos visto muitas queixas dos colegas sobre a Medicina no Brasil. Alguns, recém-formados, trabalhando no serviço público, reclamam das condições de trabalho, nos postos de saúde e hospitais públicos. Outros, em final de carreira, queixam-se de dificuldade de exercício da profissão e também da desvalorização que a carreira médica tem sofrido nos últimos tempos.. Temos assistido o governo federal implantar, goela abaixo e ao arrepio de toda a legislação pertinente, o programa “Mais Médicos”, que foi todo planejado para permitir a vinda de médicos que são verdadeiros  escravos cubanos, que trabalham para socializar  e dividir 90% do seu salário com Fidel Castro e seus asseclas, para  Cuba poder pagar a construção do porto naval por uma empreiteira nacional. Nada contra os médicos cubanos. Aliás, como eles se formaram em condições de extrema dificuldade, com poucos recursos tecnológicos, acabam se tornando, em geral,  bons clínicos. Claro que tivemos exemplos deploráveis, em receitas que são postadas aos montes, nas redes sociais, com erros crassos, como dizer que o paciente tem uma “virose bacteriana,”(SIC) mas a população em geral, está relativamente satisfeito com a qualidade do atendimento oferecido para esses colegas nos rincões, onde eles nunca tinham tido contato com médicos de verdade, pois a saúde era exercida por parteiros, práticos de farmácia e curandeiros. Estamos assistindo uma mudança profunda, na relação médico-paciente por todo o país. O modelo, antigo, do médico de família, que atendia a todos na própria residência, hoje, esta centrada  por uma relação impessoal, fria, onde muitas vezes, o paciente sequer sabe o nome do médico, nos hospitais e postos de saúde. O que nos entristece, a nós, médicos velhos de caminhada, é vermos a medicina se transformando em uma  profissão somente centrada na técnica, num tecnicismo onde a máquina impera sobre a arte. Nas faculdades de Medicina, a disciplina de Semiologia e Propedêutica, que ensina a fazer a consulta, a fazer a história clínica e o exame físico, ou seja, colocar as mãos no doente, usar os sentidos da palpação, da visão, audição, etc, estão sendo deixados de lado, em detrimento do raio x, do ultrassom, da tomografia, da ressonância magnética, cintilografia e outros exames. O médico não conversa com o paciente ou seu acompanhante, não põe a mão, não apalpa e não ausculta, enfim, não contactua com o paciente e vai logo pedindo o exame, que é mais moderno e mais chique. Como conselheiro do CRM de Mato Grosso do Sul há seis anos, temos observado que a principal motivação para as famílias processarem o médico junto àquela instituição é a falta de uma boa relação médico-paciente. A falta de diálogo, a falta de clareza e transparência nessa relação, fazem com que a família desconfie do atendimento prestado e com isso, denunciem o médico junto ao órgão fiscalizador. Muitas vezes, o médico fez tudo certinho, mas não soube informar a sua conduta para a família e o paciente acaba tendo um revés, o que faz a família suspeitar que tenha havido um erro médico e  processa o colega. A grande falha das faculdades de Medicina, e isso é um problema mundial, é a diminuiçao da ênfase na  importância da relação médico-paciente, pelos professores. A crença de que a ciência e a tecnologia trazem em seu bojo toda a solução para os problemas de saúde, fizeram com que os planos de saúde e a saúde pública tenham entrado numa espiral de gastos exponenciais, com milhões, bilhões de reais sendo desperdiçados em exames totalmente desnecessários, pedidos sem critérios, numa tentativa vã de cercar as doenças, como se pedindo exames do fio de cabelo à ponta dos pés, fosse possível detectar a doença, dando tiro para todo lado, sem um alvo preciso para se acertar.  Isso inverte a máxima dos velhos professores de medicina, segundo a qual, “A CLÍNICA É SOBERANA”. Ou seja, numa consulta médica, tirar uma boa história clínica, fazer as perguntas certas e examinar adequadamente o doente, é quase 100% suficiente para se chegar  ao diagnóstico correto e saber qual a doença que o paciente padece. Os exames vêm apenas para confirmar as nossas suspeitas. Hoje, vemos especialistas que passam o dia inteiro fazendo exames no próprio consultório, fazendo exames auto-gerados para todos os pacientes que vêm procurá-lo, como se o procedimento diagnóstico já fizesse parte da própria consulta médica. O cardiologista faz eletrocardiograma para todos os pacientes. O ginecologista faz ultrassonografia para todas as gestantes em todas as consultas, o otorrino pede exames nasofibroendoscópicos para todos os doentes, o gastroenterologista pede endoscopia e colonoscopia para 100% de seus pacientes, como se fosse lógicoe natural esse proceder. Isto faz com que 95% dos exames deem resultado negativo ou normal, mostrando o quão desnecessário eles o foram. E dá-lhe desperdício. Nesta lógica perversa do exame subsidiário e do procedimento cirúrgico predominarem na medicina, as residências médicas de pediatria e clínica médica estão ficando totalmente vazias, num desinteresse total para o aluno fazer essas especialidades, pois uma consulta de um cirurgião ou de um médico que pede exames, vale no mínimo oito vezes mais do que a consulta de um pediatra ou um clínico . É preciso um pediatra atender oito pacientes para ter o mesmo ganho de um cirurgião ou um especialista que pede exames com um único paciente. Por isso, eu tive que fechar o meu consultório. Por isso, o pediatra é um especialista cada vez mais raro no país. E se nada for feito, é uma especialidade em extinção. É preciso que um pediatra atenda duas mil crianças para ter o mesmo ganho que um neurocirurgião obtém em uma única cirurgia. É justo? Sabemos que para que as coisas mudem, às vezes precisamos ir ao fundo do poço. Acredito que Deus, em sua profunda misericórdia, coloca as coisas no seu devido lugar, mas isso demora muito a acontecer. Enquanto isso, as distorções vão se avolumando, a insatisfação dos pacientes vão crescendo e todos nós ficamos com a sensação de que alguma coisa não está indo bem. Para mudar isso, é preciso que as entidades médicas e os financiadores do sistema de saúde  revejam os seus valores e o modo de se fazer a medicina. É preciso colocar um limite na quantidade de exames e procedimentos que eles podem realizar. É preciso que se pague adequadamente pelo procedimento médico, pela consulta, valorizando o bom clínico e o médico generalista. É preciso que as auditorias funcionem adequadamente, glosando e impedindo a realização dos procedimentos que não sigam os protocolos das especialidades, que determinam quais procedimentos e quais exames são necessários para se conduzir determinado caso ou doença. Isto poderia impedir os maus médicos de realizarem procedimentos desnecessários e se utilizarem desta forma perversa de enriquecer com a medicina, a qualquer custo. Espero estar vivo para assistir essas mudanças.

publicado por drtakeshimatsubara às 03:26 | comentar | favorito