DEUS TENHA PIEDADE DE NÓS

Vivemos a era da internet. A era onde as informações são imediatas, curtas e fugazes. O que você postou no facebook ontem, hoje já é notícia velha, qual pão amanhecido, que deve ser descartado. Os pensamentos e as deduções são curtas, rasas e imediatistas. As frases são telegráficas e criamos códigos para palavras, para facilitar a digitação nos teclados dos celulares e smartphones. Criamos o microblog, onde temos que sintetizar o pensamento em no máximo 100 caracteres.

Temos visto cada barbaridade serem postadas na internet nos últimos dias, após a derrota de Aécio Neves para as eleições presidenciais, que me causam uma profunda inquietação. Culpam a derrota de Aécio aos nordestinos, aos portadores do Bolsa Família, aos pobres, aos incultos, etc..

Em minha modesta opinião, o contraponto que permeou a eleição deste ano, para a maioria, não foi a corrupção, não foram os escândalos da Petrobrás, ou mesmo a ameaça de ditadura comunista que o Partido dos Trabalhadores teima em tentar implantar neste país. O embate político que tem acontecido nas últimas 5 eleições, portanto há 20 anos, é o embate entre o PT e o PSDB. Este último ficou no ideário popular, com a imagem de um partido de direita, que prega o neoliberalismo econômico, com a ideia do Estado mínimo, que quer privatizar todas as empresas estatais, que aposta apenas no livre mercado e na desestatização do país. O discurso de Aécio Neves, pregando um novo modelo de governar o país, com mais seriedade, com cortes dos cargos comissionados, com a diminuição do número de ministérios do governo, não tiveram repercussão nenhuma diante do eleitorado. Por isso, a eleição não se decidiu no nordeste, mas em cada Estado, em cada cidade, dentro das mesmas casas e dos nossos locais de trabalho. Não foram os pobres e os bolsistas que definiram estas eleições, mas o modelo econômico adotado pelo Partido dos Trabalhadores, assistencialista, que multiplicou a contratação de funcionários públicos e promoveu uma maior distribuição de renda. As pessoas que são contrárias a esse assistencialismo dizem que devíamos ensinar a pescar em vez de dar o peixe para a população, mas para quem vivia no estado de total abandono, à margem da sociedade, o simples fato de ter um governo que estendesse pelo menos um olhar sobre ele, representou muito, conquistou seu coração e o seu voto. Embora o modelo de distribuição seja questionável é algo que o país precisava, naquele momento histórico.

Como tenho frisado nos últimos dias, vivemos numa democracia e temos que respeitar a opinião da maioria, mesmo que não concordemos com ela. Mesmo que para uma parte importante, quase a metade dos votantes do segundo turno, nas eleições presidenciais, a corrupção que grassou em todos os níveis do governo, das empresas estatais e que tem sido comprovados diuturnamente, sejam fatos de extrema gravidade e que portanto devemos trocar os mandatários do país,, termos uma alternância de poder. Vemos diariamente os membros mais radicais do Partido dos Trabalhadores criando mecanismos para implantar um governo dos sovietes, dos tais conselhos populares em todos os níveis. Vemos que a imprensa está amordaçada, ameaçada pela força do poder estatal de financiar as propagandas e a distribuição de verbas publicitárias para as empresas que lhe são dóceis. Vemos que o equilíbrio dos poderes está ameaçado, pois quando nós perdemos a confiança no julgamento isento dos magistrados do Supremo Tribunal Federal, quando vemos que um advogado que defendeu o PT a vida toda se torna o presidente do Tribunal Superior Eleitoral ele perde a confiabilidade e a isenção necessária para a ocupação de tão importante cargo.

Enfim, estamos com o país dividido ao meio. Nas mesmas famílias, temos irmãos que têm opiniões diferentes, cada um defendendo o seu candidato e partido e criticando, menosprezando e ofendendo o partido e o candidato adversário.

A grande verdade é que Lula fez um bom governo, conseguiu avançar no assistencialismo e na distribuição de rendas, sem mexer nas regras e nos pilares da economia, implantados por FHC e o seu governo, no segundo mandato, alem de ter tido a sorte de governar num período de extrema bonança da economia internacional, com o crescimento acelerado da China que comprou os produtos que nós tínhamos para vender, as tais commodities, ( soja, minério de ferro e carnes). Havia dinheiro sobrando na praça, e um grande volume de reserva externa foi investido na bolsa de valores e nas empresas do país. Porém os seus possíveis sucessores foram um a um sendo esmagados por escândalos e foram saindo de cena. Com isso, Lula ficou sem alternativa para indicar um sucessor ao término do seu mandato, tendo que indicar um poste, uma pessoa que tinha surgido do nada, que nunca havia governado ou tido qualquer mandato eletivo, que nunca passara pelos crivos das urnas. Com a popularidade em alta, Lula transferiu votos para o seu poste, Dilma, transformando-a na presidente do país. Mas ficou evidente, nestes quatro anos, que o poste não tinha nenhum preparo, não tem a personalidade afável do seu criador, não tem enfim, nenhuma das características que fazem os grandes líderes. Tivemos, durante o período eleitoral, um verdadeiro massacre de Dilma pelos outros candidatos, evidenciando o seu despreparo, a sua falta de controle emocional, o destempero e a incapacidade de lidar com momentos de tensão, somente repetindo frases feitas e números assoprados por seus marqueteiros e conselheiros políticos, sem ter anunciado nenhuma proposta de governo para corrigir os rumos do país. Aliás, pela sua fala, o seu governo foi maravilhoso, a economia está bombando, (só não está melhor por culpa do mercado externo) a inflação está controlada ( quase 7% ao ano, muito acima do teto máximo aceitável, o desemprego está em baixa, enfim, vivemos no País das Maravilhas na sua ótica. Não tem portanto que corrigir nada... Outra coisa que ficou evidente é o distanciamento entre o criador e sua criatura, entre Lula e Dilma, nestas eleições. Devido à sua personalidade teimosa e obstinada, Dilma não tem ouvido os conselhos do seu grande líder, compondo, para o seu segundo mandato, uma equipe com nomes que não gozam da simpatia de Lula.

Mas qualquer tentativa de impor um impeachment para Dilma neste momento, baseado apenas em uma matéria da revista Veja, sem que esteja provada a materialidade do crime, torna-se em verdade um golpe. Este é o momento de se lamber as feridas, de nos recolhermos à nossa derrota, com tranquilidade, aguardando o desenrolar dos fatos, fiscalizando as ações do governo, criticando, sugerindo, brigando. Mas tudo dentro das regras da democracia.

Qualquer tentativa golpista mal fundamentada irá apenas acirrar a divisão e os ânimos de ambos os lados, podendo desencadear uma guerra civil ou algo mais grave, como um golpe militar, que não podem prosperar, pois teriam consequências drásticas, muito piores do que o inferno que temos vivido.

Aguardemos com tranquilidade o prosseguimento desta crise. E vamos rezar bastante, para que o nosso Pai possa inspirar os nossos governantes e os nossos líderes, para uma saída pacífica e indolor desta crise que estamos vivendo. Oremos...

publicado por drtakeshimatsubara às 14:38 | comentar | favorito