O FUTEBOL E A ÉTICA

O FUTEBOL E A ÉTICA Recentemente, durante um clássico paulista, entre os times do São Paulo e do Corinthians, pela semifinal do campeonato paulista, ocorreu um fato que motivou discussões acaloradas de jornalistas e especialistas em futebol. Durante um lance, o jogador Jô do Corintians e o jogador Rodrigo Caio do São Paulo estiveram envolvidos numa disputa de bola na área, com o goleiro do São Paulo Renan. O juiz viu falta do corintiano e marcou cartão amarelo em Jô. A prevalecer esta postura, o Corinthians perderia um de seus principais artilheiros, para o próximo jogo de volta. Porém, o jogador do São Paulo, Rodrigo Caio, conversou com o juiz e disse que não havia ocorrido falta e que na verdade, ele havia atingido sem querer o seu companheiro de time e que portanto, o cartão amarelo seria injusto. Num lance de fair play como há muito não se via no futebol, o juiz voltou atrás e retirou o cartão. Isso motivou uma série de reações em cadeia, fazendo com que o resultado do jogo ficasse em segundo plano, com técnicos, jogadores e jornalistas e comentaristas esportivos colocando-se contra e a favor da atitude ética do jogador Rodrigo Caio. Quando acontecem acidentes na estrada, onde caminhões carregados de objetos ou alimentos tombam, a turba para seus carros, ou aparece da vizinhança para assaltar e saquear esses produtos, como se os mesmos não tivessem dono e pudessem ser roubados sem que nada de errado estivesse ocorrendo, no conceito dessas pessoas envolvidas. Quando aconteceu o terremoto no nordeste do Japão, na região de Fukushima, seguido do maremoto que destruiu cidades inteiras e matou milhares de pessoas, um fato que chamou a atenção da imprensa foi a maneira cordata com que a população se comportou, aguardando de maneira disciplinada a distribuição de comida e água pelas autoridades, não ocorrendo um único caso de saque ou de roubo dos alimentos ou de roupas. Pessoas e famílias que tinham perdido tudo, ficado com a roupa do corpo, esperaram por dias a fio, com sede e fome, mas sem saquear, roubar ou queimar tudo, como estamos acostumados a ver por este lado do trópico. O amadurecimento de uma sociedade passa pela ação do fogo e da dor. A sociedade japonesa, que já tinha uma cultura milenar, baseada em rígidos códigos de moral e ética dos samurais, teve o país todo destruído pelas bombas americanas, que destruiu todas as cidades, principalmente as maiores, com um bombardeio diuturno pelas fortalezas voadoras, as temidas B29 da Força Aérea Americana, um quadrimotor a hélice que jogava toneladas de bombas sobre as cidades, destruindo tudo que estivesse em pé. Ao final da guerra, nos idos de 1945, o pais estava totalmente destruído, com todas as suas cidades e fábricas transformadas em montes de entulho. Com a ajuda do capital americano, em poucas décadas o país se refez totalmente, transformando-se na segunda economia do mundo(hoje, terceiro). Junto com isso, noções de disciplina e ética ficaram totalmente arraigados nos membros da sociedade, de tal maneira que todos os seus cidadãos têm claro para si, de que a coisa certa deve ser feita sempre, independente de ter algo ou alguém olhando ou fiscalizando. Para um japonês, as lojas têm seus produtos expostos, com a maior naturalidade. O comprador vê o preço, vai ao caixa, onde não tem ninguém, paga o valor correto, pega o troco e assim realiza a sua compra. Algo impensável em nosso país. A nossa conduta no dia a dia, é baseada na fiscalização. Se estiver dirigindo o meu carro e vejo um guarda de transito, paro de falar ao celular, diminuo a velocidade, coloco o cinto de segurança, enfim, na frente da autoridade, somos cidadão acima de qualquer suspeita. Ao virarmos a esquina, voltamos a cometer todo tipo de infração. Um dos grandes absurdos da nossa legislação de transito previa a obrigatoriedade de se avisar sobre a existência de radares e aparelhos de fiscalização, seja de velocidade ou de ultrapassagem do sinal vermelho, sem o qual, a multa era invalidada. Nos jogos de futebol pelo país afora, cansamos de ver cenas de jogadores ajoelhados no gramado, orando e pedindo a Deus para que Ele se torne parcial, que esteja ao lado daquele determinado time, em detrimento do outro time. Como cansamos de dizer para os estrangeiros, Deus é brasileiro! Deus tem lado! Tem preferencia, torce para um time A ou B. Quando aconteceu a tragédia em novembro de 2016, quando quase todo o time da Chapecoense perdeu os seus jogadores, vimos um gesto maravilhoso, vindo dos jogadores, torcedores e diretores do Atlético Nacional de Medellin, da Colômbia, que num gesto de extrema grandeza, abdicou do título que estava em jogo, a Taça Sul Americana e concedeu o título em disputa para o time que havia perdido os seus jogadores na maior tragédia do futebol brasileiro. Movido pelo mesmo espirito de comoção que tomou conta do cenário esportivo nacional, vários times brasileiros propagandearam que cederiam seus jogadores por empréstimo, com os salários bancados por esses times, para ajudar a reconstruir o time do Chapecoense. A grande maioria, ficou apenas na propaganda e na promessa. O grande gesto de fair play, veio da Colombia, num gesto de solidariedade e altruísmo, que faltou aos brasileiros. Por ser o esporte mais popular do país, o futebol reflete todas as características da sociedade. As boas e as más. Com isso, todos os comportamentos que caracterizam o famoso e malfadado “jeitinho brasileiro”, ficam escancarados, à mostra de todos. O gesto do jogador Rodrigo Caio do São Paulo, de assumir que ele havia tocado o companheiro de time e não o jogador adversário, era para ser o padrão de normalidade, numa sociedade mais amadurecida. Porém, foi manchete de jornais. Da mesma forma, fico indignado quando o Jornal Nacional noticia que uma pessoa devolveu uma mala cheia de dinheiro para o seu dono, em cadeia nacional. A grande maioria dos comentaristas esportivos, a maioria deles ex-jogadores de futebol, admitiram candidamente que eles não teriam tomado a atitude de Rodrigo Caio. Alguns , inclusive, criticaram a posição do jogador, dizendo que ela prejudicava o seu time, o São Paulo, que perdera a oportunidade de desfalcar um jogador adversário importante, diminuindo suas chances de lutar pelo titulo paulista. É extremamente preocupante que formadores de opinião tenham um posicionamento tão antiético. A sociedade brasileira como um todo precisa rever, urgentemente, os seus valores morais e éticos. Senão, de nada adianta ficar criticando os políticos, os grandes vilões do momento, dos numerosos escândalos de corrupção e desvio de verbas públicas. Pobre país, onde um jogador que toma a atitude certa, de ser ético, correto e honesto, é vítima da fúria de sua própria torcida. Depois, não adianta reclamar que o Brasil é um pais de corruptos e de pessoas espertas, que passam a perna em todo mundo.

publicado por drtakeshimatsubara às 19:32 | comentar | favorito