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SANTANA DO ITARARÉ, PR



A minha família, procedente do Japão, em 1953, viera para o Brasil, como imigrantes, para trabalhar em uma fazenda de cacau na cidade de Una, BA. Porém, minha mãe estava gestante do meu irmão Ryuiti e, como aquela região baiana era muito carente de condições de saude e recursos, o meu avô materno, que havia chegado uns 17 anos e se instalado em Santana do Itararé, PR, mandou passagens de avião para os meus pais, quitaram as dividas de viagem de minha família e as levaram para aquela cidade.

No dia 18 de agosto de 1962, uma noite de sábado, a família toda, com exceção de minha mãe e minha parteira, Senhora Ono, haviam ido assistir filmes japoneses num barracão, 2 km de distancia de nossa casa. Para os imigrantes japoneses radicados no Brasil, os filmes japoneses, produzidos pela Toho, Toei e Nikkatsu, eram levados por mascates, geralmente com kombis, com seus projetores que eram movidos por geradores elétricos. Os pais assistiam sentados em bancos de madeira e as crianças geralmente dormiam no chão, sobre edredons, enquanto os filmes, geralmente em numero de 2, eram apresentados sobre uma tela, feita de lençóis brancos estendidos na parede. Era um acontecimento que se não me engano, eram feitos a cada dois meses. E toda a comunidade de japoneses e seus filhos compareciam para assistir a filmes sobre yakuza, samurais, filmes de romance, comédia, etc, que eram apresentados. Esse barracão, durante o dia, era a sala de aula da escola rural, onde estudávamos, várias séries lado a lado, com uma única professora, que ensinava alunos do primeiro ao quarto ano, no mesmo espaço.

Santana do Itararé era uma cidade que teve uma grande leva de imigrantes japoneses da Província japonesa de Wakayama, no Japão, em 1953. Através da intercessão de um imigrante japonês que havia enriquecido, da região de Marilia, SP, chamado senhor Yasutaro Matsubara, que se tornara um grande líder da colônia japonesa no Brasil, e foi um dos responsáveis pela vinda dos japoneses a Dourados, MT(hoje MS), em 1953, na época da criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados, a CAND. Esse senhor, um grande visionário e idealista, preocupado com os seus conterrâneos, principalmente de sua terra natal, Wakayama, que viviam as grandes dificuldades de um pais que havia sido devastado pela Segunda Guerra Mundial, com fome, desemprego, inflação galopante e miséria, intercedeu, junto ao Presidente Getulio Vargas, de quem havia se tornado amigo íntimo e que tinha livre acesso ao presidente, que o chamava de Compadre Matsubara. Esse senhor, apesar do sobrenome, não tem nenhum parentesco com minha família. Pois bem, o senhor Yasutaro Matsubara comprou com seu dinheiro, uma fazenda em Santana do Itararé, PR, outro em Una, na Bahia, e havia conseguido as terras de graça em Dourados, para trazer os imigrantes de sua terra. O produtores pagariam essa terra e suas benfeitorias, ao longo dos anos, com sua produção. Mas, os seus projetos de colonização falharam, porque as regiões eram muito distantes, tinham graves problemas de infra-estrutura e muitos imigrantes e familiares morreram de doenças, como malária, febre amarela, tuberculose e outras, para as quais ,seus sistemas imunológicos não estavam preparados. Com isso, não puderam honrar os financiamentos que os imigrantes haviam feito e o final da historia do seu Yasutaro foi melancólica, tendo falido, perdido toda a sua fortuna e voltado com sua esposa para o Japão, para morrer em 1961, na miséria.

Mas, a sua obra em Santana frutificou e as famílias aos poucos foram comprando as terras vizinhas ou expandindo seus limites, criaram clubes de recreação, onde os membros da colônia se reuniam, praticavam esportes, tinham o seu lazer. Os clubes de senhoras, fujinkai, o seinenkai (clube de moços), o rojinkai (clube de idosos), se reuniam num clube, que haviam fundado em Santana, ao lado da Cooperativa Agrícola de Cotia, outro braço criado pelos imigrantes japoneses no Brasil e que era o local onde quase toda a produção deles era vendida e os insumos comprados.

Santana do Itararé era uma região de solo arenoso e muito propicio para o plantio de batatas e feijão. Diferente da monocultura de soja e milho que hoje conhecemos em nossa região, essas culturas tinham algumas peculiaridades. Em média, a cada 3 a 4 safras, o produtor acertava a produção e o preço e ganhava muito dinheiro. As outras, quando muito, conseguiam empatar, pois o preço era regulado pelo consumo e como são produtos que não fazem quase pauta dos produtos de exportação, seus preços oscilavam demais, de acordo com a produção e a demanda. Com isso, ao longo dos anos, muitos produtores acabavam muito endividados e acabavam quebrando.

Eu tenho uma ligação toda especial com Santana. Apesar de ter saído ainda criança, para estudar e morar em outras cidades, nós, descendentes de japoneses, chamamos nossa cidade natal de “furusato” a terra das nossas origens. De minha casa, eu avistava, no lado paulista, a Serra dos Pais, do outro lado do rio Itararé, que faz a divisa de PR e SP. A minha infância e toda a riqueza de uma infância vivida no sitio, como caçar passarinhos com estilingue, com arapucas, subir em árvores para colher frutos, nadar em açudes, correr, brincar, brigar com os amigos, tudo isso, são memórias guardadas principalmente de Santana.

Meu pai tinha uma pequena propriedade, onde criava porcos, tinha granjas para criação de galinhas e produção de ovos, plantava arroz, tomate, batata, etc.

O meu pai era um homem muito calado, de pouca conversa. A minha mãe, uma mulher que vivia de bem com a vida, falava por ele e por ela. Minha mãe frisava muito a questão da honestidade, da ética. Uma mulher que mal havia concluído o que seria nosso ensino primário de hoje, tinha uma sabedoria imensa, e sempre cobrou dos filhos, a necessidade de sermos honestos, de sempre cuidarmos muito de nossas atitudes, para não manchar a honra da família, Tenho uma gratidão enorme por meus pais, pelas lutas que empreenderam, para sobreviver a guerras, à fome, às dificuldades, para começarem, do zero, uma vida em uma terra estranha, e me permitido ser o que sou hoje.

Em 7 de setembro de 2018, o prefeito Joas Michetti, através da atuação do seu assessor, Valter Almeida, que havia me encontrado no facebook e lido meu blog, concede, conjuntamente com a Camara de Vereadores daquela cidade, o título de cidadão santanense honorário. Fui receber tamanha honraria, levando toda a minha família, e minha irmã Naoko e meu cunhado Paulo Kunihiro, com seu filho Koji, alem de minha sobrinha Amanda e seu marido, estiveram na data festiva. Foi uma grande honra, ter o meu nome indicado para um título de tamanha relevância. Dediquei esse título aos meus pais, meus tios e irmãos, pela história deles, ligados àquela terra, que eu amo muito!

Obrigado Santana do Itararé. Seu filho sempre procurará honrar o seu nome e levar no coração as memórias vividas naquela terra, da qual me orgulho muito de ter nela nascido!!!

publicado por drtakeshimatsubara às 12:31 | favorito