A BACTÉRIA E A RESISTÊNCIA BACTERIANA

A BACTÉRIA E A RESISTÊNCIA BACTERIANA

Há 31 anos, 2 anos após terminado a residência médica em pediatria, e já exercendo a profissão em Dourados, tive uma grande crise existencial, ao constatar que estava numa batalha incessante contra um mísero ser vivo, chamado bactéria, e que aos poucos, estávamos tendo uma perda territorial perigosa, que poderia causar o surgimento de uma super bactéria e com isso, a morte de milhões, talvez bilhões de seres humanos. Constatava que, desde 1929, quando Alexander Fleming descobriu que um fungo, que crescia no bolor do pão estragado, Penicilium sp., produzia uma substancia, chamada penicilina, que  era um agente antimicrobiano que matava as bactérias, tivéramos uma mudança radical nos rumos da medicina ocidental. Até então, as pessoas que contraiam doenças causadas por bactérias, tinham uma grande chance de morrer. Por isso, os artistas e boêmios do passado, morriam super jovens, com 20, 30 anos de idade, ao contraírem a tuberculose devido aos seus excessos de estilo de vida. Após a descoberta de Fleming, que iniciou a era dos antibióticos, tivemos uma série de vitórias, permitindo que as pessoas que sofressem infecções graves, como meningites, pneumonias, abscessos intra abdominais e tantas outras causas que eram quase que uma sentença de morte, pudessem ser superadas e permitindo que a sociedade humana pudesse vencer essas infecções e assim, alcançar uma longevidade nunca antes imaginada.

As bactérias foram criando mecanismos de sobreviver ao ataque dos antibióticos, chamados mecanismo de resistência bacteriana, que permitiam que elas destruíssem a molécula do antibiótico. Por exemplo, as penicilinas são substâncias orgânicas, que têm em sua molécula, um radical, chamado anel beta lactamico. As bactérias, passaram a produzir uma molécula que destruía, que quebrava esse anel, chamado betalactamato, fazendo com que o antibiótico perdesse a sua eficácia. Os laboratórios da industria farmacêutica, criaram moléculas que resistiam a esse ataque, com isso, deram origem às substancias que driblavam essa resistência bacteriana. E assim, batalha após batalha, temos uma luta, entre os cientistas da industria farmacêutica, e as bactérias, que vão criando mecanismos de resistência ao antibiótico.

Devido ao uso irracional, indevido e abusivo dos antibióticos, temos, anos após anos, mais e mais cepas de bactérias que se tornam multi-resistentes, ou seja, que são resistentes a vários antibióticos. Com isso, em certos ambientes, como UTI e enfermarias de moléstias infecciosas, já temos cepas bacterianas multi-resistentes à grande maioria dos antibióticos disponíveis, fazendo com que essa guerra, esteja perigosamente chegando ao ponto da vitória da bactéria.

O grande erro, tantos dos médicos, dos balconistas de farmácia, e das pessoas leigas, é achar que o antibiótico é a panaceia que resolvem todos os casos de febre. Na grande maioria dos casos, em torno de 90% dos casos, o causador da febre é um vírus, agente sobre o qual, o antibiótico não tem ação nenhuma. Graças a Deus, a Anvisa e as entidades de classe, criaram mecanismos para coibir a prescrição dos antibióticos pelos balconistas e farmacêuticos, tornando obrigatório o uso de receita médica em duas vias, sendo que uma delas fica retida na farmácia, para justificar o destino que foi dado ao antibiótico vendido. Mas, mesmo assim, vez ou outra, vemos alguns pacientes que encontram farmácias que burlam esse sistema de fiscalização. Mas, mesmo assim, houve uma melhora do problema.

Porém, muitos médicos, com medo de processos e do risco moral de suas prescrições, além do medo que o quadro se agrave e o paciente reclame por isso, acabam prescrevendo antibióticos de maneira abusiva e desnecessária. São pessoas que pensam de maneira imediatista, não sopesando os riscos e as consequências de seus atos.

Por isso, a classe médica, a sociedade e os profissionais que lidam diretamente com o comercio e a fabricação dos medicamentos, precisam se conscientizar sobre os riscos do uso indiscriminado, sobre as vendas indevidas e desnecessárias, sobre o uso dessa substancia, que é tão revolucionaria, mas ao mesmo tempo, pode se tornar uma arma poderosa contra essa própria sociedade e o nosso sistema de vida.

Precisamos usar de maneira parcimoniosa, respeitosa e ética, os medicamentos, sabendo que eles não são inócuos, que eles tem efeitos colaterais, e que seu uso indevido, pode causar consequências graves para nos mesmos. Somente assim, poderemos prolongar essa batalha por mais um longo tempo, dando tempo para a industria farmacêutica criar mecanismos que driblem a criatividade da natureza.

A vida, mesmo de uma bactéria, é importante e ela vai fazer de tudo para sobreviver.

Saibamos lutar com respeito diante de todas as manifestações de vida, mesmo as menores delas, como os vírus e bactérias. Elas têm causado um dano tremendo para nossa sociedade, devido ao desequilíbrio que nós mesmos promovemos.

Pensemos nisso.

publicado por drtakeshimatsubara às 15:55 | comentar | favorito