JANIO QUADROS E JAIR BOLSONARO: A HISTÓRIA SE REPETE?

 

JANIO QUADROS E JAIR BOLSONARO: A HISTÓRIA SE REPETE???

Em 1960, o Brasil estava terminando o mandato de Juscelino Kubitschek, um médico mineiro, que havia feito uma carreira politica apoteótica e havia sido eleito presidente da Republica. Sua obsessão era mudar o Brasil, em 5 anos de mandato. Seu lema: 50 anos em 5!

A sua principal obra fora mudar a capital federal para o planalto central, um sonho que vinha sendo acalentado desde a Constituição Federal de 1890 e que finalmente se materializava, a um custo elevado, tanto financeiro como politico. Construir uma cidade inteira, com uma urbanização moderna, com avenidas largas com setores comerciais separados, baseado num projeto urbanístico de Lucio Costa, com seus palácios arquitetados por Oscar Niemeyer, literalmente quebrou o Tesouro Nacional. Nesse periodo, começou a tomar corpo as empreiteiras como Odebrecht, Camargo Correia, Constran e tantas outras, que se especializaram em construir grandes obras no período militar, tornaram-se gigantescas, transnacionais e terminaram melancolicamente envolvidas em escândalos de corrupção nos governos do PT.

Em virtude das despesas gigantescas que foi a construção de Brasilia, bem como de outras obras estruturantes, como diversas BR federais, a hidrelétrica de Furnas e tantas outras obras, o governo JK terminou envolvido em acusações de corrupção e escândalos.

Isso foi combustível para o surgimento de uma candidatura presidencial de um professor de português, Janio Quadros, que havia sido governador de São Paulo e baseado numa campanha bem sucedida, onde empunhava uma vassoura, para varrer a suposta corrupção de JK. Com esse mote, Janio foi eleito presidente da Republica.

Poucos anos após, após brigas intermináveis com as forças politicas da época, Jânio renuncia, em agosto de 1961.

De acordo com historiadores da época e atuais, Janio Quadros esperava que sua renúncia causaria uma comoção nacional, e com isso, seria reconduzido ao seu mandato, ganhando poderes inimagináveis, para fechar o Congresso e o Senado e poder governar  como um ditador.

Mas, o restante da história é bem conhecida e Janio Quadros desembarcou na base aérea de Cumbica, em Guarulhos, então uma base aérea da Força Aérea Brasileira, sem que nenhum cidadão estivesse a esperar por ele e assim, terminou melancolicamente o seu golpe de Estado furado.

Vocês irão me perguntar : Tá, e aí, o que isso tem a ver com o nosso tempo atual?
Vejo o nosso presidente Jair Bolsonaro, que nunca escondeu seu pendão para o poder absoluto, agindo de uma maneira errática, nesta crise atual, que eu começo a ver um perigo de se tentar algo parecido.

A impressão que eu tenho é que o presidente Jair Bolsonaro quer, a todo custo, provocar uma cisão no Brasil. Ele quer mostrar o tempo todo, que a imprensa, que o Congresso Nacional, que o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e agora também os governadores, não o deixam governar e tomar as suas decisões politicas que o pais precisa. A impressão que fica, é que Bolsonaro quer que ocorra o movimento que culmine com seu impeachment. Nesse momento, segundo sua avaliação, os militares se uniriam em torno dele e o reconduziriam ao poder, com plenos poderes quase ditatoriais, que lhe permitiriam fechar o Congresso, o Senado, destituir os juizes do Supremo e nomear novos membros. Seria algo à moda Hugo Chaves.

Porém, na minha humilde opinião, ele não conta com alguns fatores, cometendo os mesmos erros que Janio Quadros cometeu.

  • Hoje, o apoio popular ao presidente é muito menor do que no período eleitoral. Dados do Idea Big Data mostram que foram de 52% no auge do segundo turno de 2018 e hoje, ele conta com um apoio de 32% da população brasileira. Houve uma queda acentuada desse apoio, após o inicio da crise do Covid 19 pois sua postura, de ir contra as medidas adotadas por todos os lideres mundiais, de convocar o pais a se unir contra o vírus, quando nosso presidente segue o caminho oposto, de apoiar uma quarentena vertical, de segregar os idosos e a população de risco e todo o restante voltar ao trabalho. A grande maioria dos países que tentaram essa medida, tiveram que voltar atrás, devido à explosão de mortandade que ocorreu 2 semanas após essas medidas. O próprio presidente americano Donald Trump, que era um dos poucos que defendiam essa ideia, voltou atrás e hoje, defende o isolamento social. Pesquisas mostram que a população brasileira, em 76%, apoiam o isolamento social e a quarentena.
  • Os militares não embarcariam numa aventura, pois há anos, eles têm mostrado uma postura equilibrada, não incentivando golpes e outras medidas que contrariam o preceito da Constituição que eles juraram defender. Além disso, o vice presidente, General Mourão, goza de um apoio nas alas militares até maior do que o presidente. A postura equilibrada e serena do vice presidente, de apoiar a quarentena, de defender o ministro da Saúde, tem angariado apoios em setores importantes, tanto políticos como de militares e da simpatia geral da população, fazendo com que a iniciativa de Jair Bolsonaro perca respaldo popular.
  • O Brasil não é Venezuela, não é Cuba, não é Bolivia. Este pais, continental, que se tornou a quinta maior economia do mundo, tem instituições solidas, estruturadas e que não dão espaço para aventuras e golpes.
  • O grupo baseado na ideologia de Olavo de Carvalho, cujas ideias são totalitárias e defensoras do fechamento das instituições que se opõem ao presidente, está minguando, ao lado do presidente. O radicalismo desse grupo, que é defendido pelos filhos do presidente, tem perdido forças e não tem conseguido alcançar relevância politica.

A postura do presidente Jair Bolsonaro, que tem sido errática, ora de apoio à quarentena, ora de ataques aos governadores e prefeitos e principalmente ao Ministro da Saúde, Luis Henrique Mandetta, num claro sinal de ciúmes do protagonismo de seu subordinado, tem pegado muito mal para a grande maioria dos brasileiros, com exceção dos bolsonaristas raízes, os fanáticos defensores do presidente, que, graças a Deus, tem se mostrado num contingente insuficiente para permitir que  tais aventuras e arroubos do presidente possam oferecer perigo à democracia brasileira.

Com isso, corre-se o risco de se repetir o erro cometido por Janio Quadros e o presdiente Jair Bolsonaro, com sua atitude de enfrentamento e de provocações, acabar realmente sofrendo um impeachment, pois suas atitudes colocam em risco a vida e a segurança dos cidadãos brasileiros.

Espero sinceramente, estar errado e que nada disso esteja ocorrendo, sendo apenas ideias malucas na cabeça de um cidadão que está com tempo de sobra, nesses tempos de quarentena...

A se aguardar.

publicado por drtakeshimatsubara às 14:34 | favorito