MINHA MÃE, TAKE MATSUBARA

MINHA MÃE, TAKE MATSUBARA

 

Ao se aproximar o Dia das Mães, no próximo domingo, lembro-me com saudade de minha querida mãezinha.

Um dia, algum dia, pretendo escrever um livro, contando a história dessa mulher sensacional, que foi a dona Take.

Nasceu de uma família de agricultores, na Provincia de Kumamoto Ken, no sul do Japão, Era a segunda filha de uma família numerosa e que, nos idos dos anos 1930, resolveu imigrar para o Brasil. Venderam tudo que tinham, e compraram passagens de navio, para vir para o Brasil, na época, num esforço enorme para substituir a mão de obra escrava por imigrantes, europeus e asiáticos. Durante o embarque, minha mãe foi barrada pela imigração, pois estava doente, com conjuntivite por Chlamidia trachomatis. Naquela época, não havia tratamento com antibióticos e esta doença estava na lista das doenças que impediam as viagens internacionais de navios. A família do meu avô, Nishida, se viu numa tremenda saia justa. Tinham vendido tudo e não tinha mais como voltar atrás e esperar longos meses pela recuperação de minha mae. A solução encontrada, foi deixa-la para trás, aos cuidados de seus tios, irmão do meu avô. Eu me lembro de que minha mãe falava sobre isso sem revolta, mas, com certeza, foi um período duro, que a marcou para sempre. Por ter sido praticamente abandonada pela família, ela foi usada como uma empregada pela família de seus tios, trabalhando de sol a sol e sem direito a descanso. O que mais doía era  ouvir que ela chegava varada de fome, de tanto trabalho pesado, mas muitas vezes, tinha que dormir sem direito a jantar, pois a prioridade era alimentar primeiro o chefe de família, depois os familiares e, se sobrasse comida, a minha mãe.

Nesse ínterim, a família do meu pai, Matsubara, havia se mudado para a Mandchuria, possessão chinesa que havia sido tomada pelo Japão, na Guerra entre ambos, que durou de 1937 a 1945. Esta guerra, tinha por um lado os chineses que recebiam apoio militar e de aviões e armamentos americanos, contra os japoneses. Durante a fase inicial, os japoneses venceram e conquistaram uma grande porção oriental da China.  A Mandchuria era uma região extremamente rica, com solo altamente fértil e com subsolo pleno de riquezas, como carvão mineral e petróleo. Eles haviam sido convocados pelo governo japonês para produzir hortaliças e verduras para os soldados japoneses que haviam se estabelecido por lá. Pelos idos de 1940,  o meu pai estava em idade de se casar e fizeram um casamento arranjado chamado “omiai”, onde o contato era feito por um padrinho, através de cartas e fotos. Feito o casamento, minha mãe vai para uma terra desconhecida, onde os ataques terroristas eram constantes, pois os japoneses eram os invasores que haviam se estabelecido pela força das armas. Minha mãe contava que eram constantes os ataques, com muitos amigos e conhecidos sendo assassinados pelos “manchus”, os moradores originais daquela terra. Além disso, era uma região conflagrada, com tiros de metralhadoras e canhões, além de bombardeios constantes,  de aviões americanos. Esta guerra foi um dos embriões que causaram a II Guerra Mundial, no Pacífico, entre o império japonês e o americano, culminando com o ataque a Pearl Harbor, no estado americano do Havaí em 7 de dezembro de 1941. Apesar de tudo, a minha mãe me contava que ela havia sido feliz, pois comparado com a vida anterior, ela estava no paraíso, morando numa colônia de japoneses onde procuravam preservar as tradições, com as festas e comemorações que fazem parte da cultura japonesa.

Terminada a II Guerra Mundial, o Japão havia perdido a guerra. Já nos estertores do final da guerra, em 1945, a União Soviética declara guerra ao Japão e invade a Mandchuria, retomando as terras e as devolvendo para a China. Durante a fuga da família Matsubara para o Japão, eles foram embarcados em um trem de carga, de transporte de minérios e carvão, aqueles vagões que não tinham teto. Numa época de extremo frio, chuva e neve, a minha família, que contava com duas filhas, a minha irmã mais velha Keiko e uma segunda filha, Yasuko, que contava com meses de idade. Esta última, ao sofrer os rigores do clima, adquiriu uma doença respiratória, provavelmente uma pneumonia, e veio a falecer.  Num momento de grande confusão, com tiros de metralhadoras para todo lado, com ameaças de explosão desse trem o tempo todo, não foi possível se fazer uma cerimonia de funeral decente para ela, sendo praticamente abandonada ao lado dos trilhos, no processo de fuga.

Chegando ao Japão, eles retomam a vida, com o meu pai, segundo filho, assumindo os cuidados da família Matsubara, pois o meu tio, irmão mais velho dele, Toiti, tinha ido para a guerra e não se sabia seu paradeiro, sendo dado como morto. O meu pai, que tinha uma formação de técnico agrícola, naquela época um equivalente a um titulo universitário, foi trabalhar numa cooperativa próxima e também ajudava o meu avô nos cuidados da terra que haviam recebido num processo de reforma agraria pós-guerra.

Nesse ínterim, por volta de 1952, o meu tio tionam, Toiti ou mais velho, e que havia sido levado como prisioneiro de guerra pelos soviéticos, em campos de trabalhos forçados e concentração na Sibéria, foi libertado, mediante acordo de paz entre o Japão e a União Soviética e libertado, voltando para casa. O meu pai percebe que não havia espaço para tantas famílias na casa de meu avô e resolve imigrar para o Brasil.

Nessa época, a família de meu pai contava com 3 filhas mulheres. O contrato de imigração exigia a presença de mais um trabalhador do sexo masculino. Foi nessa hora que entra a figura do nosso tio Motonobu, irmão mais novo de meu pai, que foi praticamente forçado por meu avô a vir junto, acompanhando a nossa família. Nós, temos uma dívida de gratidão enorme por esse tio, pois foi graças a ele, que foi possível a imigração da família Matsubara para o Brasil.

Eles assinam um contrato com uma fazenda de cacau na cidade de Una, BA. Ao chegarem àquele local, percebem que as condições de moradia e trabalho não eram exatamente como propagado anteriormente. Havia uma alta incidência de malária, doença para quais os japoneses não estavam imunologicamente preparados e causava uma mortandade imensa. Além disso, havia fortes boatos de estupros de mulheres japonesas pelos baianos. Minha mãe estava gestante do nosso irmão mais velho, Ryuiti e as condições para o parto não eram as melhores na Bahia. O meu avô materno, Nishida, que havia se estabelecido em Santana do Itararé, PR, envia passagens de avião, para que meu pai, minha mãe e irmã menor na época, Takako, pudessem ir para lá. Alguns meses depois, o meu pai vai buscar o tio Motonobu e as minhas duas irmãs mais velhas, Keiko e Naoko, que haviam ficado na Bahia.

Começa então uma das fases áureas para a nossa família. Com a ajuda do meu avô Nishida, o meu pai inicia a vida de agricultor, logo comprando sua terra e em pouco tempo, fazendo grandes melhoramentos, com a edificação de uma casa, construção de granjas para criação de galinhas, cultivo de tomate, batata, feijão e outras atividades.

Em 1978, logo após o casamento do nosso tionam, Ryuiti com a nossa cunhada Marcia Ritie, eu, com 15 anos de idade, saio para estudar o terceiro colegial e fazer cursinho. Nessa época, um novo baque na vida de Dona Take, ao descobrir que ela estava com um câncer de colo de útero. Avançado. Submetida a uma cirurgia de grandes proporções no Hospital AC Camargo, de São Paulo, passa por um longo e penoso período de tratamento quimioterápico e radioterápico. Enquanto isso, eu era aprovado no curso de medicina na Fundação do ABC, em Santo André, SP.

O nosso irmão mais velho, Ryuiti, juntamente com nossa cunhada, havia assumido os comandos dos negócios da família, ficando responsável pelo cuidado de todos nós. Já manifestei em outro texto a minha gratidão enorme por esse irmão e por sua família, por ter me permitido formar-me médico. Pois bem, numa época de grande dificuldade financeira, a nossa mãe manifesta o desejo de voltar para o Japão, pois ela não sabia quanto tempo sobreviveria. Eu sei que meu irmão fez um esforço sobre humano, pegando dinheiro emprestado de agiota e tudo o mais, para poder financiar essa viagem para o Japão. Os cunhados ajudaram na empreitada e a viagem foi realizada. Eu só sei que, quando ela voltou do Japão, estava horrorizada com as mudanças pelas quais o país havia passado em tão pouco tempo. O consumismo desenfreado, o materialismo, a perda de valores das crianças, enfim, tudo havia se modificado de tal maneira, que ela não reconheceu mais os lugares por onde havia vivido. Eu me lembro de que, mesmo não sabendo falar quase nada em português, ela percebeu que ela havia se tornado uma brasileira.

Depois de formado em medicina e terminado a minha residência médica em pediatria, voltei para Dourados. Menos de um ano depois, ela me chama para que eu a examinasse, pois havia percebido uns caroços em sua barriga. Ao examiná-la, novo baque, pois o câncer dela havia voltado com tudo, tendo se disseminado por todo o seu abdômen. Tentamos um tratamento com ela, mas sabíamos que era em vão.

Recém chegado a Dourados, conheci o grande amor da minha vida, a Silvia. Nós tínhamos planos para nos casarmos no final de 1989, mas ela nos pediu para adiantar o casamento, pois queria ver casado o ultimo filho dela. E assim nós fizemos.  E sete meses depois, ela falecia, em 24 de fevereiro de 1990, após uma longa agonia.

Era uma mulher com baixíssimo nível de escolaridade, mal tendo conseguido concluir o ensino primário dos dias de hoje, mas gostava de ler os jornais escritos em língua japonesa, o que demonstrava que ela havia aprendido sozinha, por autodidatismo. Além disso, foi uma mulher muito sábia e que me passou valores que carrego comigo, de honestidade, de ética, de valores morais, tendo marcado a vida de todos os seus filhos para sempre.

Dona Take, obrigado pela sua vida, pelo seu exemplo e pela sua fortaleza. Dizem que uma árvore se mede pelos seus frutos e eu vejo que essa árvore frondosa, deu inúmeros bons frutos, tendo influenciado filhos, genros, noras, netos e bisnetos, que, espelhados no seu exemplo, seguem pela vida, dando testemunho dos seus imensos valores, plantando novas árvores, instituindo novas famílias, todas alicerçadas no exemplo de amor, dignidade e ética que marcaram sua vida para todos nós.

A senhora, juntamente com o ditian, Takasuke, deixaram um legado que só tem crescido e frutificado ao longo dos anos.

Muitíssimo obrigado!

Feliz Dia das Mães!!!

publicado por drtakeshimatsubara às 18:42 | comentar | favorito